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Intervenção do Vice-Governador, Luís Máximo dos Santos, no encerramento da Conferência “20 anos Sérvulo” na sessão sobre o futuro do sistema financeiro

1. Permitam-me que comece por agradecer aos organizadores desta Conferência o convite que me foi dirigido. Gostaria de deixar uma palavra especial para o Senhor Professor Sérvulo Correia, de quem tive o privilégio de ser aluno no já distante ano letivo de 1981-82, e a quem continuei sempre a admirar pela excelência do seu ensino e da sua obra mas também pela sua ação como cidadão empenhado na vida coletiva. 

2. O programa desta Conferência foi pensado para debater o futuro em diferentes áreas relevantes da nossa vida económica e jurídica. Na minha opinião, as melhores apreciações sobre o devir das sociedades encontram-se mais frequentemente em artistas, designadamente escritores e cineastas, do que em cultores das ciências sociais, com a exceção de alguns ensaístas célebres. 

Também os empresários e os gestores estão bem colocados para nos falar sobre o futuro. Antecipar comportamentos está na génese da sua ação, pois, por natureza, têm de assumir riscos. Para o fazerem com lucidez, têm de identificar as tendências do comportamento dos consumidores e das organizações, da evolução da tecnologia, ou seja, têm de antecipar a evolução dos mercados.  

Irei centrar a minha intervenção em aspetos que se prendem com a dimensão comportamental no contexto do processo de transformação digital.

3. Prever o futuro, obtermos para nós e para os nossos projetos a vantagem do conhecimento antecipado, é um desejo que nos acompanha desde sempre e que nem a reconhecida dificuldade da sua concretização é capaz de fazer esmorecer.

Dos oráculos da antiguidade aos mais complexos algoritmos servidos pela inteligência artificial de hoje, a capacidade de extrair uma visão antecipada, uma previsão sobre uma tendência, uma possibilidade, uma probabilidade sobre o devir de um fenómeno humano, económico ou social é algo de fascinante. No mundo empresarial, e em particular na indústria financeira, pode ser a diferença entre a mediania e a superação ou mesmo entre o desaparecimento e o sucesso. 

Visto assim, este impulso, que em cada presente nos impele para o conhecimento do futuro, é muito antigo. Muitos sustentam que atualmente a inovação está a acontecer mais rapidamente do que a nossa capacidade de nos adaptarmos a ela. Esse é – ou poderá ser - o facto verdadeiramente novo. 

Tenta-se perspetivar o futuro através da análise do presente e do passado. Alguns dos que pressentiram a crise financeira global de há dez anos - e disso tiraram proveito económico – fizeram-no baseando-se no estudo das estatísticas sobre o comportamento do mercado hipotecário nos Estados Unidos nas vésperas da crise de 1929. 

Mesmo no contexto das novas tecnologias, perspetivar o futuro é, em qualquer caso, um exercício muito difícil e altamente falível. É um facto, por exemplo, que os algoritmos também falham[1]. As projeções fundadas na melhor informação e conhecimento disponíveis podem gorar-se em virtude de acontecimentos de natureza disruptiva, traumáticos, combinações inesperadas decorrentes de aquisições científicas simultâneas, a emergência de “cisnes negros”, na consagrada expressão de Nassim Taleb. 

Na verdade, temos de ter presente que, como alguns afirmam, os “factos impossíveis” estão apenas a começar[2]

4. Nos últimos anos, são incontáveis as obras, os relatórios de organizações nacionais e internacionais, públicas e privadas, de instâncias de decisão política a diversos níveis, bem como eventos de todo o género sobre o futuro da atividade bancária. 

É natural que assim seja face à dimensão das transformações que estão em curso. 

Na quarta revolução industrial o avanço tecnológico é simultaneamente exponencial e combinatório, isto é, os avanços tecnológicos estão a dar-se de forma integrada e transversal, não se limitando a ser aplicados em domínios específicos. 

Essas características levam muitos autores – a meu ver bem - a sustentar que o processo em curso de transformação da sociedade não tem paralelo, havendo mesmo quem afirme que a Humanidade vai mudar mais nos próximos vinte anos do que nos últimos trezentos[3]

Mas por mais impactantes que sejam as transformações tecnológicas elas não fazem desaparecer os constrangimentos económicos básicos. Não podemos, de facto, perder de vista esse ponto essencial: a tecnologia é um meio para aumentar a rentabilidade através de uma maior eficiência dos modelos de negócio e promover o desenvolvimento económico e social. Mas para cumprir a sua missão última tem de fazer parte duma economia dinâmica, que distribua a riqueza de modo satisfatório, e estar protegida pelo enquadramento de um Estado de Direito que, entre outras coisas, assegure os direitos fundamentais e a fluidez das relações contratuais.      

Marshall McLhuan, nos seus estudos pioneiros sobre comunicação no século XX, sublinhou que “nós moldamos as nossas ferramentas e, por conseguinte, as nossas ferramentas moldam-nos a nós”.

Na verdade, a evolução tecnológica condiciona-nos – e muito -, sobretudo no atual contexto em que as tecnologias se tornaram mais eficientes e intrusivas do que nunca. Mas a tecnologia não tem necessariamente que determinar as nossas escolhas: há uma relação biunívoca – tecnologia e sociedade influenciam-se mutuamente. 

Nem tudo o que é tecnologicamente viável é desejável ou eticamente aceitável. E, por vezes, pode não ser legal. Cabe a cada um de nós, nas respetivas profissões, e também enquanto cidadãos, garantir que isso não acontece. O futuro somos nós que o construímos.  

5. A dimensão transversal do processo de transformação digital permite-nos dizer que estamos perante uma mudança profunda do modo de organização e funcionamento das sociedades e não apenas perante uma mera alteração do paradigma económico-financeiro. 

Também por isso a discussão sobre o futuro do setor bancário é muito importante. É que o setor financeiro - e o setor bancário em especial - desempenham há muito um papel crucial nas sociedades modernas. 

O setor bancário deu os primeiros passos na época do Renascimento, reforçou-se no contexto das sucessivas revoluções industriais, a ponto de uma das características do modelo económico contemporâneo ser a “financeirização”, que significa que o setor bancário – para o bem e para o mal – assumiu um papel central na vida social. 

Essa centralidade contribui também para que o setor bancário e o setor financeiro em geral estejam em mutação acelerada.  

Exemplo dessa mutação é a emergência das Fintechs. Trata-se de um fenómeno do maior relevo. Vem enriquecer o tecido económico, diversificar a oferta de produtos e serviços financeiros, aumentar a concorrência e, portanto, beneficiar os consumidores. Muitas ficarão pelo caminho, o que em nada belisca a importância do fenómeno em si, pois é algo natural num processo que é ainda de afirmação. 

Há quem entenda que as Fintechs são uma ameaça mortal para o setor bancário. Decididamente, o setor bancário não continuará igual ao que é; mas o vaticínio do seu desaparecimento a prazo parece-me não só largamente exagerado, parafraseando Mark Twain, mas, mais do que isso, infundado e simplista na medida em que subestima a capacidade de adaptação do setor, a sua experiência acumulada, o caráter infungível de uma parte das suas funções e a massa crítica que é capaz de mobilizar. 

Verificamos, aliás, noutro plano, que nem a televisão matou a rádio ou o cinema, nem a Internet matou a televisão. Porém, todos mudaram profundamente. E é isso que penso que irá acontecer no setor bancário.    

Para fazerem face de forma bem-sucedida à mutação em curso, as instituições financeiras terão de assumir e assimilar plenamente a evolução tecnológica e a centralidade da relação com os clientes, bem como a importância das parcerias estratégicas com os novos atores do setor financeiro

Nenhuma destas ideias é, em si mesma, uma novidade. Pelo contrário, estão há muito no ADN da boa gestão bancária. Mas os termos em que a respetiva execução se coloca hoje são muito diferentes do que eram no passado.  

O pior erro seria ficar em estado de negação quanto à profundidade do processo de mudança. Desvalorizar a evolução tecnológica em curso, enfatizando a perspetiva de que se trata apenas de mais uma das sucessivas vagas de inovação com as quais o setor sempre se deu bem, não ajuda a criar um ambiente propício à mudança.  

A importância da solidez das decisões de gestão é hoje ainda mais crítica. Com efeito, num setor ainda a recuperar da crise e onde o capital não abunda, é fundamental que os elevados investimentos necessários à transformação digital atinjam plenamente os objetivos visados e sejam eficientes.  

Perante a avalanche da mudança, devemos ter a audácia da humildade: a hipercomplexidade dos assuntos desaconselha atitudes de autossuficiência. Como refere um autor, “o maior perigo da inteligência artificial é, de longe, as pessoas concluírem demasiado cedo que a compreendem”[4]

6. A criação de uma cultura orientada para o cumprimento e pautada por valores afigura-se-me essencial para o futuro da banca no contexto da sua transformação digital. 

Na base da atividade bancária sempre esteve a confiança. O dano mais duradouro para o setor sempre se deu quando se verificaram quebras de confiança. 

Na era digital isso é ainda mais verdadeiro, pois a realidade é muito mais imaterial e os clientes estão, por um lado, numa posição de maior vulnerabilidade potencial, mas, por outro, têm uma muito maior amplitude de escolha e capacidade de reação. Por isso mesmo, os efeitos de qualquer quebra de confiança são amplificados pela própria natureza das relações digitais. Temos visto como assim é, em múltiplos setores da atividade económica, incluindo as grandes empresas tecnológicas.   

Ora, num mundo em que a tecnologia está acessível, disseminada e desenvolvida como nunca, e em que a sua utilização é permanente e generalizada, resulta reforçada a importância dos valores e da cultura da organização como fator da sua afirmação e diferenciação no mercado.   

Por isso, uma cultura de cumprimento do direito, em geral, e das normas regulatórias, em especial, é um fator essencial para gerar a confiança indispensável ao desenvolvimento do negócio. Mas não chega. É preciso que a promoção das boas práticas seja uma realidade interiorizada por todos os níveis de gestão e pelos colaboradores e que o sistema de incentivos seja coerente com esse objetivo. Não se trata apenas de uma questão de conformidade regulatória: trata-se da edificação de uma cultura institucional, que é algo muito mais vasto e profundo, porque imaterial.     

7. Partilho a preocupação daqueles que, sobretudo em determinadas áreas, assinalam excessos regulatórios. Todos temos consciência de que os custos da regulação são hoje elevados. Mas os custos da sua insuficiência ou ausência, como a crise financeira global bem demonstrou, são muito maiores e mais duradouros. 

Por seu turno, a velocidade da evolução tecnológica e dos mercados aconselha a um permanente controlo da qualidade da legislação e do quadro regulatório em geral, de modo a evitar que se torne um obstáculo à inovação. E é fundamental, em defesa do próprio sistema financeiro, que seja plenamente garantida, através das entidades de supervisão e, em última análise, dos tribunais, a plena efetividade do quadro normativo aplicável.  

8. A utilização de megadados (big data) para os mais diversos fins constitui um pilar essencial da quarta revolução industrial. Transformar esses dados em informação e a informação assim obtida em conhecimento é algo que traz vantagens fantásticas mas também riscos enormes. 

Assim, a garantia da proteção dos dados pessoais é hoje uma condição indispensável para a criação de confiança em qualquer organização, incluindo naturalmente nas instituições bancárias, aspeto que sublinho, muito embora se trate de matéria fora do âmbito de ação do Banco de Portugal, pois, como sabemos, é matéria que está cometida, em primeira linha, às próprias instituições e, no plano das autoridades de supervisão, à Comissão Nacional de Proteção de Dados. 

Em suma, é minha convicção que a desvalorização do Direito e do comportamento ético foram fatores nucleares da crise financeira. Esse caminho, porém, está a ser invertido. Mas é preciso extrair no plano da gestão bancária todas as ilações a esse respeito. Só assim se criará uma cultura institucional ancorada em valores sólidos, que será decisiva para ultrapassar com sucesso a transformação digital e garantir o futuro do setor.  

9. É hoje um lugar-comum da gestão assinalar o reconhecimento da “importância das pessoas”, ainda que nem sempre haja coerência com esse propósito. Contudo, num mundo de utilização homogeneizada da tecnologia, o capital humano tenderá a ser o fator “que faz a diferença”. 

A criatividade humana não é descartável. Pode até dizer-se que na era dos algoritmos ela é ainda mais decisiva[5]. A utilização da tecnologia digital deve ser eticamente enquadrada, pois as pessoas e as sociedades precisam de ética sob pena de colapso a prazo mais ou menos longo.  

A ética digital está assim a tornar-se um importante campo de estudo e tenderá a sê-lo cada vez mais. Há mesmo quem sugira a criação de um Conselho de Ética Digital Global, incumbido de definir as regras fundamentais e os valores mais básicos e universais de uma sociedade cada vez mais digital[6]

Um novo campo se abre para a regulação e / ou para a auto regulação, tendo em vista garantir que a transformação digital nos proporciona o ganho líquido individual e social que está ao seu alcance.

Em conclusão, no plano da evolução tecnológica e das exigências comportamentais os desafios que este mundo novo, que se desvenda diante de nós, coloca ao setor bancário são aliciantes e difíceis. Debatê-los publicamente é também um exercício de cidadania e nessa medida este evento não podia ter sido mais oportuno. 

Muito obrigado pela vossa atenção. 

 


[1] Cf. Hannah Fry, Olá Futuro – Como ser humano na era dos algoritmos, Planeta, 2019, pp. 32-38 e 241-245.   

[2] Cf. Tom Chatfield, Como aproveitar ao máximo a era digital, Lua de papel, 2019, p. 13. 

[3] Cf. Gerd Leonard, Tecnologia versus Humanidade, Gradiva, 3ª ed., 2019, p. 19.

[4] Cf. Eliezer Yudkowsky, citado por Gerd Leonard, ob. cit., p. 29.  

[5] Cf. Hannah Fry, ob. cit., p. 245.

[6] Cf. Gerd Leonhard, ob. cit., p. 206.