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Intervenção de abertura do Governador, Carlos da Silva Costa, na Conferência conjunta do BCE, Banco de Portugal e Comité Irving Fisher sobre Estatísticas dos Bancos Centrais

Bom dia[1],

 

É com enorme prazer que vos dou as boas-vindas a esta conferência conjunta com o Banco Central Europeu e o Comité Irving Fisher sobre Estatísticas dos Bancos Centrais. Ao longo dos próximos dois dias, os nossos ilustres convidados irão partilhar connosco as suas ideias sobre como podemos melhorar as nossas estatísticas externas no futuro próximo. 

As estatísticas externas constituem um instrumento fundamental para moldar e apoiar a política económica. A qualidade das estatísticas externas depende decisivamente 

  • da adequação dos conceitos estatísticos utilizados 
  • e da fiabilidade dos dados recolhidos. 

Quer digam respeito a um universo estatístico ou a uma amostra representativa, os dados têm sempre de se basear em conceitos inequívocos e consentâneos com os objetos analíticos a estudar.

Deparamo-nos diariamente com novos fenómenos sociais e económicos, bem como novos modelos de organização do trabalho, do espaço em que nos movemos e até do lazer. O aparecimento de cadeias de valor globais é apenas um exemplo contundente desta realidade. Será que dispomos atualmente dos melhores conceitos e indicadores estatísticos para uma adequada apreensão destas tendências em constante mudança? Provavelmente não.

Mas mesmo na posse dos conceitos certos, os dados recolhidos têm também de respeitar exigentes padrões de qualidade e coerência.

A digitalização do armazenamento e da transmissão de informação proporciona uma boa oportunidade para a melhoria da eficácia da recolha e da representação de dados. 

Porém, é crucial assegurar a qualidade, a inviolabilidade e a integridade dos dados recolhidos, bem como a máxima segurança no acesso e na transmissão dos mesmos.

Sempre que um determinado elemento de informação se torna objeto de interesse público, terá de existir um equilíbrio entre a proteção de dados individuais e a utilização fluida dos dados para fins de investigação e de formulação de políticas.

Este compromisso desafiante entre confidencialidade e acesso tornou-se particularmente notório quando a comunidade estatística avançou para o domínio dos microdados.

  1. Quando lidamos com microdados, o primeiro desafio consiste em assegurar que as informações individuais permanecem invioláveis e em segurança durante o tratamento estatístico e econométrico. Trata-se aqui de perceber como garantir que a proteção de dados não impede que o analista capte a diversidade subjacente a médias, medianas e modas. Não é difícil encontrar situações em que essa diversidade é, na verdade, o próprio objeto de estudo: 
  • Podemos questionar, por exemplo, se os trabalhadores de empresas com intensa atividade de exportação são menos vulneráveis ao desemprego durante recessões;
  • Ou podemos estudar a variação do impacto do meio social na produtividade individual dos trabalhadores, entre diferentes países e culturas.
  • Um segundo desafio consiste em alcançar um grau de cobertura relevante da informação recolhida, o que significa permitir que se estabeleçam correspondências entre diversas bases de microdados e as estatísticas agregadas. O desafio neste caso advém do facto de as bases de microdados serem recolhidas para diferentes finalidades, tornando difícil assegurar a integridade e a compatibilidade. O objetivo último tem de ser o de construir uma rede de bases de microdados, geridas de forma autónoma por diferentes instituições, eventualmente de países diferentes, mas interligadas por uma plataforma de linguagem comum que garanta um acesso seguro e uma correspondência ágil. Uma rede deste género melhoraria, sem dúvida, o entendimento que temos de mecanismos económicos como, por exemplo:
    • A repercussão dos preços das importações nos preços internos;
    • Ou a ligação entre oferta de crédito internacional e investimento.
  • Diria ainda que os microdados colocam um terceiro desafio: a necessidade de revisitar o mandato das autoridades estatísticas. No novo domínio dos microdados, as autoridades têm não só de produzir estatísticas agregadas, mas também de preservar, manter e fornecer os microdados subjacentes.
  • O Banco de Portugal enfrenta já todos estes desafios através do seu laboratório de microdados instalado no Porto, o BPLIM. O nosso laboratório iniciou a atividade em 2016 com o objetivo de disponibilizar livremente as nossas bases de microdados à comunidade de investigação em geral. Até ao final do ano passado, iniciaram-se 109 projetos de investigação com a participação de mais de 160 investigadores, entre os quais cerca de 80% eram externos ao Banco de Portugal. Destes, mais de um terço estavam associados a instituições internacionais de investigação. Mas precisamos que outras autoridades estatísticas se juntem a nós, para dispormos de bases de microdados que abarquem a globalidade da realidade socioeconómica. A cooperação entre autoridades estatísticas contribuirá igualmente para o desenvolvimento de métodos e ferramentas comuns, bem como para a identificação de melhores práticas.

    Ao assegurar a existência de fortes normas de qualidade para a recolha, a manutenção, o tratamento e o acesso a microdados de interesse público, as autoridades estatísticas darão a melhor resposta pública às plataformas digitais privadas. Estas plataformas privadas recolhem, usam e vendem microdados sem qualquer tipo de controlo público ou orientação para o interesse público. Somente recorrendo a plataformas públicas de microdados anonimizados, representativos e controlados será possível para a nossa sociedade mitigar a vantagem competitiva das Big Techs.

    Tal significa que a única estratégia com interesse para enfrentar os monopólios de informação detidos por operadores privados consiste em transformar a informação num bem de interesse público, garantindo simultaneamente a proteção da privacidade e o acesso equitativo por parte de todos os agentes económicos e sociais. Esta estratégia reforçará, em cada um de nós, a capacidade para atuar e tomar decisões de forma cada vez mais informada.

    Tenho a certeza de que esta conferência nos trará muitas perspetivas úteis quanto aos caminhos que podemos seguir para uma implementação eficaz dessa estratégia.

    Muito obrigado pela vossa presença.


    [1]Preparado para apresentação.

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