Está aqui

Intervenção de abertura do Governador Mário Centeno no Fórum Banca

Muito bom dia.

Em primeiro lugar, agradeço o convite do Jornal Económico para abrir este debate sobre as perspetivas do sistema bancário português. 

Vivemos num momento da história Europeia que não antecipávamos. 

Quando a recuperação económica no pós-pandemia começava a ser um dado, a invasão da Ucrânia pela Rússia veio criar um quadro económico, social e geopolítico de imprevisibilidade. Com isto, a economia europeia enfrenta em simultâneo dois choques exógenos de grande dimensão e sem precedentes, que condicionam as perspetivas de crescimento económico e introduzem pressões inflacionistas. 

Embora a inflação deva permanecer alta durante 2022, não há razões estruturais para que não convirja para o objetivo de médio prazo à medida que os desequilíbrios sejam gradualmente resolvidos e a incerteza dissipada. Não há por ora, sinais estruturantes de desancoragem. 

Contudo, o balanço de riscos em torno das projeções da inflação está enviesado em alta devido à possibilidade de um conflito mais longo e à imposição de sanções económicas adicionais sobre a Rússia, nomeadamente sobre a importação de energia.

Uma eventual desancoragem das expetativas de inflação e os efeitos de segunda ordem originários nas pressões salariais constituem riscos adicionais que exigem uma monitorização atenta e continuada.

Como tenho vindo a referir, a normalização da politica monetária é necessária e desejável. Mas as condições para a fazer e o modo como será concretizada merecem a nossa atenção.

A paciência e o gradualismo na política monetária são necessários e devem ser proporcionais aos choques que enfrentamos.

A política monetária não deve sobrerreagir, num sinal de nervosismo injustificado que criaria instabilidade e fragmentação. Uma reação intempestiva penalizará também o crescimento económico.

Num recente inquérito a responsáveis empresariais de todo o mundo o maior receio levantado sobre a politica monetária do BCE foi o de poder existir uma sobrereação que penalizasse a recuperação económica.

Os custos de uma política monetária agressiva ou mesmo de uma normalização muito rápida superam os benefícios.

Uma reação demasiado forte, através de um aumento rápido e acentuado das taxas de juro, pode ter efeitos desestabilizadores ou mesmo desencadear uma recessão quando a área do euro mal recuperou da anterior crise.

Por outro lado, a ausência de reação, ou a perceção de que não há uma resposta suficientemente vigorosa, poderá exigir um aperto agressivo da política monetária mais à frente para controlar a inflação, com custos acrescidos em termos da atividade e de emprego.

Para complicar a análise, é também concebível que a ausência de reação, ou uma normalização muito lenta, favoreça expectativas de inflação baixa no longo prazo, uma vez que reforça a ideia de que o regime monetário continua a ser um de taxas de juro relativamente baixas e inflação baixa.

No momento atual, a definição da política monetária ótima é condicionada pela sucessão e dimensão dos choques recentes. Longe vão os tempos do piloto automático.

Em qualquer caso, o elevado grau de incerteza aconselha a uma resposta gradual e baseada nos dados sobre a evolução da economia agora e no futuro. Por outras palavras, manter a opcionalidade nas decisões de política monetária é crucial no momento atual.

Os bancos centrais estão cientes dos riscos e, por isso, têm adotado uma resposta gradual em função da informação que vai ficando disponível. 

No caso na área do euro, o fim das compras líquidas de ativos deverá ocorrer durante o terceiro trimestre deste ano e “algum tempo depois” o BCE deverá aumentar as taxas de juro. 

Neste momento antecipa-se que tudo isto possa acontecer nas primeiras semanas do terceiro trimestre, mas esse não é o debate mais importante agora. O foco deve ser no processo, na sua duração, na sua magnitude. Porque a verdade é que a normalização já se iniciou a partir do momento em as compras liquidas começaram a reduzir-se, ainda em 2021 e continuando em 2022.

É com este contexto que a banca portuguesa terá de se afirmar no futuro próximo. 

Este enquadramento macroeconómico, nacional e internacional, irá condicionar o balanço das vulnerabilidades e riscos do setor.

Mas é importante relembrar que o progresso desenvolvido pelo sistema bancário português na última década, preparou-o para absorver potenciais perdas, resultantes dos efeitos que poderão persistir da crise pandémica e dos impactos indiretos da agressão bélica da Rússia à Ucrânia.

Durante a pandemia, o setor bancário português provou a sua resiliência. As reformas regulatórias e de supervisão globais iniciadas após a crise financeira global e a redução de risco que ocorreu nos 5 anos anteriores à crise da pandemia contribuíram para aumentar a resiliência dos nossos bancos.

Os rácios de NPL bruto e líquido de imparidades mantiveram a trajetória de redução iniciada em junho de 2016, situando-se em 3,6% e 1,7%, respetivamente, em dezembro de 2021, refletindo o cumprimento dos objetivos delineados nos planos de redução de ativos não produtivos. 

Porque às vezes minoramos os nossos esforços e sucessos, recordo que, em junho de 2016, 17,9% da carteira de empréstimos do setor bancário estava classificada como non-performing

Os mais de 38 mil milhões de euros de redução dizem bem do extraordinário, mas difícil, caminho que os bancos percorreram. E mesmo durante a pandemia.

Todavia, este esforço de redução de risco deve permanecer para as instituições que ainda registam rácios elevados, sendo que para as restantes é essencial manter critérios de concessão de crédito prudentes e que evitem a acumulação de risco excessivo no balanço.

A par das medidas de apoio dirigidas à manutenção do emprego, as moratórias e as linhas de crédito com garantia pública, permitiram mitigar a materialização do risco de crédito e manter a liquidez das famílias e das empresas. 

Durante a pandemia, contribuiu ainda para a resiliência do setor bancário, a alteração do fator de apoio aplicado às exposições a PME no âmbito do CRR quick fix, permitindo um menor ponderador de risco nestas exposições.

Também o suporte à liquidez da política monetária foi crucial para a manutenção da estrutura de financiamento do sistema bancário. O recurso significativo dos bancos às operações TLTRO contribuiu para a redução do custo e risco de financiamento. Bem como a recomendação para a não distribuição de dividendos para o reforço da solvabilidade.

No pós-pandemia, a forma como essas medidas foram gradualmente levantadas, acrescido do apoio europeu para a recuperação, tem permitido preservar valor e relações económicas sem impedir o necessário ajustamento do tecido empresarial, não introduzindo riscos acrescidos no sistema bancário.

As medidas implementadas em Portugal, nacionais ou europeias, e o seu efeito conjugado, bem como o seu timing de execução e de extinção, permitiu que a economia portuguesa fosse ultrapassando com distinção os desafios da pandemia e do pós-pandemia.

Os números da posição do sistema bancário português no final de 2021 são reveladores deste processo.

O rácio de Fundos Próprios Totais do sistema cifrou-se em 18% em 2021, face a 16,9% em 2019.

O perfil de liquidez também se reforçou, com o rácio de transformação, medido pelo crédito em função dos depósitos a reduzir-se de 87,1% em 2019 para 81,2% em 2021, suportados por um rácio de cobertura de liquidez que se situa atualmente em cerca de 260%, face a 218,5% em 2019. 

O nível de capital tem permitido a redução do montante de ativos não produtivos, de que já falei. 

Também a rendibilidade do sistema tem observado uma evolução positiva. A rendibilidade do ativo aumentou 0,41 p.p. face ao ano anterior, tendo-se fixado em 0,46%, ligeiramente acima dos valores pré-pandémicos. Esta evolução refletiu a diminuição das imparidades para crédito e, em menor grau, o aumento dos resultados com operações financeiras.

Os bancos portugueses são mais eficientes do que os seus congéneres europeus. O rácio cost-to-income manteve a tendência de redução iniciada em 2019, situando-se, em 2021, em 53,4%, menos 4,4 pp face a 2020 e cerca de menos 8 pp face à média europeia. Para esta redução contribuiu o aumento do produto bancário e a redução dos custos operacionais.

Apesar dos desenvolvimentos positivos, os desafios permanecem.

Com o aumento das taxas de juro de mercado, a margem bruta tenderá a melhorar, dada a concentração de empréstimos a taxa variável. Perspetivamos que o impacto líquido no balanço dos bancos possa vir a ser positivo, uma vez que a recuperação económica poderá conter os efeitos negativos da materialização acrescida do risco de crédito.

Adicionalmente, o rácio de cobertura de NPLs, de cerca de 52% para o total da carteira e de 86% nos setores mais afetados pela pandemia, escudará o setor de efeitos do risco de crédito.

Por outro lado, o aumento das taxas de juro de longo prazo poderá ter um impacto negativo na valorização dos ativos financeiros em carteira, com destaque para a dívida pública. Contudo, a redução relativa da exposição à dívida pública nacional e o aumento da proporção da exposição a dívida pública a custo amortizado minora estes efeitos.

A exposição do setor bancário ao imobiliário residencial também é monitorizada, mas a situação atual não é comparável com a da anterior crise financeira. O perfil de risco dos mutuários melhorou na sequência da recomendação macroprudencial e cerca de 90% da carteira de crédito à habitação apresenta um rácio de loan-to-value inferior a 80%. Bons indicadores da resiliência dos bancos portugueses neste domínio.

O desafio da digitalização continua. Nos últimos dois anos a banca portuguesa realizou um investimento significativo em infraestruturas de tecnologias de informação. Os programas de transformação digital implementados têm permitido ajustar a estrutura operacional à nova realidade digital, potenciar a oferta de produtos e serviços e obter ganhos de eficiência. 

Mas a digitalização levou a um aumento dos pontos de entrada dos ciberataques –  nos canais digitais para clientes, nos de teletrabalho e pela maior utilização de prestadores de serviços nas áreas de tecnologia de informação. Esta preocupação estende-se ainda aos ataques a prestadores de serviços (supply-chain attacks). 

O contexto geopolítico em que vivemos também tem potenciado o ciber-risco. A resiliência cibernética, é assim, um elemento crítico na atividade bancária.

Dadas as interligações existentes entre as instituições e o recurso a prestadores de serviços tecnológicos comuns, a possibilidade de riscos sistémicos também não é negligenciável. 

A avaliação da capacidade de os bancos se defenderem perante uma potencial materialização de riscos de cibersegurança é uma das prioridades de supervisão do SSM e do Banco de Portugal. 

Finalmente, uma palavra para os desafios da transição climática, agora mais condicionados pela necessidade da redução da dependência energética

Os mecanismos europeus, já definidos e em definição, terão um papel crucial para reduzir a nossa dependência de combustíveis fósseis, que não são sustentáveis e que a agressão da Rússia apenas veio sublinhar. 

Mas para além da dependência do gás ou do petróleo russo, a questão prende-se com a dependência de fontes de energia não sustentáveis. O mercado tem alternativas. A transição deve acelerar a utilização dessas alternativas.

A aposta na neutralidade carbónica e numa economia circular implica uma transformação profunda do nosso sistema económico. Uma transformação que abarca todos os setores de atividade e obriga as empresas e as instituições financeiras a alterarem os modelos de negócio.

A tarefa de reconversão da economia é ciclópica (como só poderia ser perante a ameaça com que estamos confrontados). 

Foi já demonstrado por várias entidades de referência que a transição energética constitui um desafio comportamental e financeiro de uma dimensão absolutamente excecional.

O Banco Europeu de Investimento estimou que, para atingir o objetivo de reduzir em 55% as emissões de gases com efeito de estufa até 2030, a União Europeia vai necessitar de investimentos adicionais equivalentes a 2,1% do PIB por ano.

O Fundo Monetário Internacional apresentou estimativas, que até considerou conservadoras, segundo as quais atingir a meta global de emissão nula líquida – net zero – de gases com efeito de estufa em 2050 requer investimentos adicionais de 0,6 a 1% do PIB global em cada ano.

O McKinsey Global Institute, por seu turno, calculou que essa mesma meta de net zero em 2050 vai exigir um esforço cujo pico deverá acontecer entre 2026 e 2035, com investimentos adicionais que serão, nessa altura, equivalentes a 1,6% do PIB global.

Perante valores desta ordem de grandeza, há uma conclusão incontroversa: o investimento público terá de ser acompanhado por um volume ainda maior de investimento privado. 

Sobretudo tendo em conta que:

  • estamos perante valores adicionais de investimento, ou seja, a acrescer aos investimentos brutos para substituir o capital produtivo, também reorientados para a transição, mas que teriam de ser realizados de qualquer forma;
  • que se trata de um esforço a sustentar ao longo de décadas;
  • e, finalmente, que o esforço será desigual entre países e setores;

já o disse: as políticas públicas serão determinantes para a transição – e, portanto, são também determinantes para o investimento privado. Mas o envolvimento do setor financeiro também será crucial. A assimetria de informação é desfavorável aos governos e a capacidade de monitorização está do lado do setor financeiro.

Esta responsabilidade, que pode e deve ser encarada como uma oportunidade, tem várias implicações. Vou destacar duas.

A primeira é que as tipologias de investimento terão de ser ajustadas. 

Os projetos de investimento sustentável tipicamente envolvem tecnologias inovadoras, acarretam custos consideráveis em investigação e desenvolvimento, incorporam uma forte intensidade de capital e têm horizontes de concretização muito longos, medidos em décadas. Estas caraterísticas requerem instrumentos de capital, quase-capital, capital de risco e outras modalidades menos comuns, além dos tradicionais mercados de crédito bancário e de obrigações.

Uma segunda implicação tem que ver com a qualidade da informação subjacente a estes investimentos. 

A boa avaliação dos riscos e das oportunidades relacionados com a sustentabilidade ambiental exige que a informação esteja disponível, seja de boa qualidade e comparável e não comporte custos excessivos. 

Várias entidades de referência têm estudado esta questão, que pode ser vista como os alicerces do edifício. Falo, por exemplo, do Fundo Monetário Internacional, do Financial Stability Board, da Network for Greening the Financial System e da International Financial Reporting Standards Foundation.

O Banco de Portugal tem acompanhado e contribuído para estes esforços.

De facto, necessitamos de dados que:

  • permitam aos supervisores monitorizarem os riscos para a estabilidade financeira de origem ambiental;
  • forneçam aos investidores a informação necessária para avaliarem as empresas e os projetos efetivamente “verdes”;
  • informem as diversas partes envolvidas quanto aos planos de transição das empresas para formas de funcionamento mais sustentáveis.

Todos devemos estar conscientes de que a transição energética está já a acontecer e tenderá a intensificar-se. As instituições financeiras nacionais, em particular, necessitam de interiorizar essa realidade.

O custo de adiar este processo de adaptação, aguardando que os quadros de regulação e de reporte estejam completos, será provavelmente superior ao custo de agir já, mesmo com as limitações e as lacunas de dados que todos reconhecemos.

As consequências económicas e os riscos financeiros de uma crise climática serão profundas para o setor. É, assim, essencial que os bancos desenvolvam formas de lidar com esses riscos, incorporando-os nos seus modelos de negócio, nas suas estruturas de governo e na gestão de risco. 

Paralelamente, a regulação e supervisão prudencial estão em profunda transformação. Os três pilares do enquadramento microprudencial estão a ser adaptados aos riscos ESG; as expectativas de supervisão do SSM sobre a gestão dos riscos climáticos pela banca foram alargadas às instituições bancárias a operar em Portugal; e o BCE lançou um teste de esforço centrado nos riscos climáticos para avaliar o grau de preparação dos bancos. 

Os resultados, previstos para junho, serão considerados numa perspetiva qualitativa no processo de análise e avaliação para fins de supervisão (SREP). Pelo impacto indireto nos requisitos de fundos próprios do Pilar 2 (por via das notações atribuídas), este exercício revela-se, assim, um passo determinante neste processo de transformação.

Para concluir

O setor bancário português enfrenta mais uma vez um quadro de incerteza acrescido. Contudo, nos anos que tem pela frente, estou certo que continuará o seu processo de redução do risco e consolidação de mercado. O sistema bancário português possui capital e liquidez para desenvolver, sem condicionantes, o seu papel de intermediário financeiro, contribuindo para a resiliência e sustentabilidade da economia portuguesa. 

Muito obrigado.

Tags