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Intervenção de abertura do Governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, no Grande Encontro Banca do Futuro 2021

Muito bom dia.

O futuro não é mais incerto do que o presente. Começo, para vos preencher a manhã, com uma citação de Walt Whitman. Walt quis transmitir uma ideia de confiança no futuro. No futuro (é este o título do poema) “todos nós estamos avançando, avançando, acelerando lentamente, certamente melhorando// O mundo, a raça humana, a alma.”

Pode ser demasiada ousadia, em especial a uma hora tão matinal, acrescentar à poesia de Walt Whitman, a banca. Mas, se o caminho percorrido pela banca portuguesa entre as duas últimas crises económicas foi notável, o seu futuro, num quadro de recuperação da crise pandémica, deve merecer a nossa melhor atenção, “certamente melhorando”. 

Nos últimos anos, “acelerámos lentamente”, mas com segurança. E “estamos avançando” para um equilíbrio renovado: numa economia mais forte, mais verde e mais digital, da qual a banca é parte integrante.   

Deixemos então Whitman e comecemos pelo presente.

A economia portuguesa encontra-se a recuperar da crise pandémica, muito em linha com os seus pares na área do Euro. 

Apesar do inicio de ano titubeante, no primeiro semestre do ano, a atividade económica cresceu mais do que o esperado, impulsionada pelo crescimento do consumo privado. 

O crescimento económico foi possível pelo processo de desconfinamento e pelo enorme sucesso da vacinação em Portugal. Estes dois processos aumentaram a confiança e trouxeram de novo os agentes económicos ao mercado.

Foi um ajustamento para o qual não tínhamos, nem teoria económica, tipicamente preocupada com processos de transição entre equilíbrios, nem qualquer outro evento do passado que nos servisse como guia. Na verdade, nunca antes tínhamos decretado o encerramento da economia mundial. 

Mas nem por isso a resposta dos sistemas económico e bancário deixou de ser extraordinária, superando todas as previsões. 

Na verdade, talvez nos tenhamos deixado levar com demasiada simplicidade pela rapidez da resposta.

As economias europeias estão próximas da atividade pré-pandémica – em Portugal será previsivelmente no 1º trimestre de 2022 –  mas a base da economia hoje é diferente. A recuperação foi assimétrica em termos setoriais e regionais, mas prossegue a bom ritmo.

Ainda assim, o caminho que nos falta trilhar está associado a uma inevitável reafectação de recursos, que por natureza não é automática, mas que deverá criar um efeito de segunda ordem, necessariamente mais lento e que reduz o ritmo de crescimento. Mas esta fase não é, só por isso, menos importante e merece a atenção de todos os decisores de política económica.

No presente temos que recuperar a economia global.

A economia global constitui-se ao longo de muitas décadas. Cresceu, densificou-se, criando múltiplas (muitos milhões de) interligações entre zonas do planeta muito distantes. Criou mercados e ligou-os.

Se a crise ditou o desligar de todas estas interligações. O que foi feito de forma abrupta e forçadamente coordenada. Mais complexo se está a revelar o processo de as retomar. 

Não será necessariamente nos mesmos moldes, nem seguramente ao mesmo ritmo em todos os setores ou regiões. Mas as dificuldades de oferta que hoje enfrentamos são temporárias, resultam da dificuldade de resolver um gigantesco (nunca antes resolvido em tão pouco tempo) problema de Investigação Operacional, mas serão ultrapassadas.

A análise económica é, neste contexto, particularmente desafiante. Num sistema complexo, os habituais canais de transmissão de estímulos e de informação para a tomada de decisão – de trabalhadores e de empresas - foram condicionados pelas medidas de contenção do impacto da pandemia.  

O ajustamento será gradual. Se a extraordinária capacidade das nossas economias, na primeira fase da recuperação (com taxas trimestrais de crescimento de 15% no PIB, de 40% nas exportações), pareceu dar-nos o mote e o elã para o que seria uma rápida recuperação das trajetórias pré-crise, não devemos agora soçobrar perante dificuldades que são mais de natureza tecnológica do que económica.

Os preços, o melhor mecanismo de sinalização de incentivos aos agentes económicos, revelam exatamente a encruzilhada em que nos encontramos.

A inflação permanece, ainda, um fenómeno temporário. Associado à recuperação da crise económica, à sua rapidez e dificuldade de retomar mecanismos desativados.

Na Europa, não observamos efeitos de segunda ordem na interação do mercado de trabalho com os preços. A política monetária deve estar consciente das suas capacidades, mas não consegue resolver choques de oferta.

Devemos ter, neste momento, a paciência que só a manutenção de pilares essenciais das nossas políticas económicas pode emprestar ao processo de recuperação.

Uma política monetária que permaneça acomodatícia ao longo desta nova fase da recuperação. 

Uma política orçamental que acompanhe a recuperação, sem acumular riscos para o futuro, mas sem deixar de apoiar os setores mais vulneráveis à crise.

O ajustamento que ainda falta fazer não se compadece com as métricas habituais. Por exemplo, as medidas extraordinárias de apoio ao emprego ainda impactam nas decisões de trabalhadores e empresas. Assim, no mercado de trabalho, a evolução das variáveis geralmente monitorizadas tem que ser lida com cautela; não devem ser utilizadas as relações habituais para retirar implicações de política.  

Passemos agora ao futuro.

É difícil avaliar se estamos perante uma transição para uma economia mais verde e mais digital, no que se pode ler como um conjunto de transições, ou se pelo contrário estamos perante uma verdadeira metamorfose, mais profunda, do sistema económico e social. Onde as desigualdades ganham um novo prisma e devem ser uma preocupação central, onde os riscos são avaliados de uma nova forma, mas não devem ser descurados. Porque os novos riscos substituem os antigos, e os novos investimentos tomam o lugar dos que deixam de ter espaço numa economia que se pretende mais sustentável. 

Este é o contexto para debater o futuro que nos interessa, o ajustamento do setor bancário português, uma peça fundamental neste processo. 

Comecemos pelos factos: o progresso realizado pelo sistema bancário português na década que se seguiu à crise financeira internacional foi preponderante para aumentar a sua resiliência a choques adversos. 

Prova disso, embora não quiséssemos, nem precisássemos para efeitos demonstrativos, foi a resposta resiliente dada pelo setor ao choque pandémico.

Este progresso permitiu que o setor financiasse a economia portuguesa nestes tempos únicos de pandemia e esteja agora preparado para os riscos de crédito. 

Assim que os sinais de crescimento económico e ultrapassagem da crise sanitária se tornaram visíveis, a rendibilidade do sistema bancário português melhorou. 

Hoje, temos um sistema bancário mais resiliente, operacionalmente mais eficiente, com uma melhor qualidade de ativos e com rácios de capital estáveis. 

Subsistem fragilidades. Mas este contexto de recuperação da atividade económica, associada à transformação digital e climática da nossa sociedade, cria, por si só, um contexto de oportunidades para o setor bancário português.

A transição digital do setor bancário começou no início da década passada e foi acelerada pela pressão sobre a rendibilidade, alavancada no contexto regulatório favorável e mais recentemente, pela pandemia. E não pode parar.

Esta transição tem subjacente uma mudança de paradigma do modelo de negócio assente numa organização interna menos pesada e um relacionamento digital com os clientes.

Nos últimos dois anos os bancos portugueses realizaram um investimento significativo em infraestruturas de tecnologias de informação e pessoas.

Ao abraçarem mais rapidamente a mudança tecnológica e ao tornarem os seus processos mais eficientes, os bancos aumentam a velocidade da prestação dos serviços financeiros e reduzem custos.

No entanto, neste processo, os bancos também podem ser induzidos a assumir mais risco de crédito para aumentar a rendibilidade e permanecer competitivos, o que não pode ser descurado.

Do lado dos reguladores e do poder legislativo, é fundamental que se proporcionem condições concorrenciais de igualdade entre os diversos participantes no mercado.

O futuro passa pela tecnologia, pela sua adoção e adaptação. Mas não podemos esquecer que, atualmente, as BigTechs estão fora do perímetro regulatório e de supervisão direta pelas autoridades financeiras. 

Por exemplo, a utilização de dados sobre os seus clientes, recolhidos através das plataformas, é um recurso relevante que necessita de ser regulado cuidadosamente, promovendo a igualdade concorrencial. 

As autoridades nacionais e internacionais precisam de coordenar a atuação, em diferentes áreas, como a supervisão prudencial, proteção de dados e concorrência.

Mas a digitalização traz consigo desafios de cibersegurança. Como muitas instituições financeiras recorrem aos mesmos fornecedores para soluções de tecnologias de informação, um ataque cibernético a um único grande fornecedor pode assumir uma natureza sistémica.

Também não se pode descurar o impacto da materialização de um risco que se propague por várias instituições financeiras, dadas as estreitas interligações existentes entre elas. 

Deste modo, o risco cibernético é relevante no desenho de medidas prudenciais, incluindo macroprudenciais, dado o impacto sistémico. 

A digitalização coloca também desafios aos bancos centrais. 

A estabilidade da política monetária e o regular funcionamento dos sistemas de pagamentos dependem do acesso e uso generalizado da nossa moeda, o Euro. O desafio da moeda digital está também presente, no futuro próximo.

O Eurosistema está a trabalhar no desenvolvimento e possível emissão do Euro Digital para preservar o equilíbrio nos sistemas de pagamentos. 

O objetivo é que o Euro Digital complemente, mas não substitua, o numerário, sendo um meio de pagamento simples, universalmente aceite, sem risco e confiável. Características não espelhadas nas moedas digitais privadas, que para além de precisarem de ser convertidas, estão sujeitas a riscos de segurança, operacionais, de crédito, de liquidez e de mercado. 

A introdução do Euro Digital poderá apoiar a digitalização da economia europeia e fomentar a inovação nos pagamentos de retalho, podendo levar, assim, ao reforço da soberania europeia num domínio tão estratégico como os pagamentos, onde o bom funcionamento é crucial para a condução da política monetária e para a manutenção da estabilidade financeira.

E por último, as alterações climáticas e a degradação ambiental, que são fontes de mudanças estruturais, afetam a atividade económica e, por sua vez, o sistema bancário.

Aqui, gostaria de destacar o compromisso apresentado na COP 26 por um conjunto muito significativo de bancos a nível mundial (saudando de forma especial, a presença da banca portuguesa). Compromisso, não só de alinhamento com a neutralidade carbónica em 2050, mas também na implementação de objetivos intermédios, essenciais para o cumprimento de um processo de transição eficaz.

A transição climática necessita de financiamento publico e privado. Vai substituir velhos investimentos, não compatíveis com os objetivos de descarbonização, por novos investimentos.

Assim, este processo de transição é por si só uma oportunidade para os bancos incorporarem gradualmente esta mudança estrutural nos seus modelos de negócio, nas suas considerações estratégicas e na tomada de decisão do dia-a-dia.

A atuação do Banco de Portugal tem-se pautado por uma participação ativa, sempre com o objetivo de melhorar a quantidade e a qualidade dos dados à disposição dos bancos e para supervisão, de melhoria do quadro analítico subjacente, e de adaptação do quadro regulamentar e de supervisão.

Importa compreender as implicações e os canais de transmissão dos riscos ambientais e das políticas de transição para a evolução cíclica e estrutural da economia, para o sistema financeiro e para a condução da política monetária.

Volto ao mote inicial que vos propus: O futuro não é mais incerto do que o presente.

O nosso papel, enquanto banco central e supervisor, é o de trabalhar para garantir a robustez do sistema financeiro, de modo a que este esteja preparado para suportar os riscos resultantes das alterações climáticas, mas também para aproveitar as oportunidades de transição para uma economia de baixo carbono.

O papel de um banco central é o de trabalhar para que o futuro não seja mais incerto do que o presente.

Não deixemos de colocar, também, esta exigência na banca em Portugal. Para sermos merecedores dos avanços e das melhorias que o futuro nos trará.

Muito obrigado.

 

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