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Intervenção de abertura do Governador, Carlos da Silva Costa, na 9.ª Conferência do Banco de Portugal "Desenvolvimento Económico Português no Espaço Europeu"

Intervenção de abertura[1]

É com muito prazer que o Banco de Portugal recebe todos vós nesta conferência dedicada ao desenvolvimento da economia portuguesa. 

Este tema reveste-se da máxima pertinência, em particular dado que vivemos tempos de crescimento económico. 

As fases de crescimento são especialmente oportunas para refletirmos sobre as prioridades e os desafios para o futuro do nosso país, sem a pressão própria de emergências cíclicas ou de ajustamentos inadiáveis. A circunstância de podermos já observar sinais de abrandamento desse crescimento torna ainda mais premente a habitual reflexão promovida pelo Banco de Portugal.

Este ano, voltamos a reunir um lote de investigadores que, em conjunto com agentes de política económica e com a sociedade portuguesa, podem ajudar-nos a refletir sobre as vias de desenvolvimento que se apresentam ao nosso país, à luz do mais avançado conhecimento científico. Esta reflexão deve ter em conta: 

  • Por um lado, as aspirações dos cidadãos em termos de rendimento e de equidade social;
  • E, por outro lado, a capacidade de produção instalada, geradora do rendimento necessário à concretização de tais aspirações. 

Ao longo da última década, o PIB per capita português manteve-se 30 a 40 por cento abaixo da média da União Europeia, sem progresso visível na convergência com as economias mais ricas, o que atesta a margem de progressão que temos.

Importa, por isso, identificar e concretizar condições que promovam o crescimento sustentável do produto potencial – isto é, que tornem a economia portuguesa estruturalmente capaz de crescer a taxas superiores no médio e longo prazo, independentemente das oscilações cíclicas. Só um crescimento mais robusto e sustentado poderá elevar os níveis de bem-estar da população portuguesa aos patamares que almejamos.

Sabemos que o que separa a economia portuguesa das economias com melhor desempenho em termos de produto per capita são as diferenças de produtividade, e não o número de horas trabalhadas. A solução para um crescimento sustentável do nosso PIB per capita deve, portanto, centrar-se no acionamento das ‘alavancas’ que possam exponenciar a produtividade dos nossos trabalhadores. 

Entre as ‘alavancas’ de produtividade, destacaria cinco.

Primeiro, as competências dos trabalhadores, nas quais mantemos, apesar dos avanços já alcançados, hiatos em relação às economias mais avançadas. 

Segundo, os níveis de capital por trabalhador, que em Portugal são particularmente baixos. Sabemos que o aumento da intensidade capitalística depende de mais e melhor investimento, mas sabemos também que o investimento se encontra condicionado pelo elevado nível de endividamento das empresas e pela reduzida taxa de poupança das famílias. 

Terceiro, a inovação. A inovação envolve todo um ecossistema de fatores, de entre os quais sublinharia:

  1. A predominância de uma cultura de mérito e de empreendedorismo;
  2. A capacidade da sociedade para aprender e superar-se com iniciativas fracassadas;
  3. A adequação dos sistemas financeiros, em particular dos mercados de capitais, às necessidades de financiamento das empresas;
  4. A difusão do conhecimento junto do tecido empresarial e a capacidade das empresas para incorporar esse conhecimento.

Quarto, a atratividade do ambiente de negócios. Neste domínio, é crítico que possamos ter um quadro legal, institucional e regulatório que promova:

  1. o dinamismo no mercado de trabalho, 
  2. processos eficazes de insolvência e recuperação de empresas,
  3. a minimização dos custos de contexto,
  4. a simplicidade e estabilidade do sistema fiscal, 
  5. a eficácia do sistema de justiça
  6. uma cultura de abertura ao risco
  7. e o desenvolvimento dos mecanismos financeiros de partilha desse mesmo risco.

Por último, em quinto lugar, destacaria a natureza, robustez e qualidade dos modelos de gestão enquanto alavanca de produtividade.

Para que a combinação de capital e trabalho resultem em produção, necessitamos de empreendedores, de organizações e de modelos de gestão, que tenham em conta a realidade social, cultural, institucional e ainda o estádio de desenvolvimento tecnológico dos países.

Estudos recentes, nomeadamente da autoria do Professor Van Reenen, aqui presente, mostram que cerca de 30% das diferenças na produtividade entre países são explicadas por diferenças na qualidade da gestão.

O nosso país tem aqui uma importante margem de progresso para explorar. Na mais recente edição do Global Competitiveness Index, publicado pelo World Economic Forum, Portugal fica atrás de 15 economias da União Europeia. Na lista de indicadores em que obtemos pior classificação, contam-se alguns relacionados com a qualidade dos modelos de gestão, nomeadamente a atitude para com o risco (posição 80 em 140 economias); a predisposição para delegar autoridade (posição 70 em 140); e a integração de ideias disruptivas (posição 46 em 140). Importa, por isso, perceber de que forma podem os nossos modelos de gestão evoluir para tornar a nossa economia mais produtiva. 

Permitam-me que termine saudando o conjunto de distintos oradores que se disponibilizaram para participar nesta conferência. 

Estou certo de que todos eles enriquecerão o debate, a partir das alocuções iniciais dos Professores John Van Reenen e José Pinto dos Santos – duas intervenções que, seguramente, muito beneficiarão da investigação de ambos nos domínios da inovação e da gestão, bem como da sua valiosa experiência junto, respetivamente, do universo da política económica e do universo empresarial multinacional. 

Em tempos como os de hoje, marcados por tão forte heterogeneidade e tão baixo dinamismo global na produtividade, torna-se crítico perceber como a qualidade da gestão empresarial e a capacidade para absorver conhecimento podem condicionar tais dinâmicas.

Estou seguro de que os estudos que hoje vamos debater nos ajudarão a perceber melhor como podemos colmatar o hiato de produtividade que separa Portugal das economias mais avançadas e dos níveis de bem-estar e de equidade que todos almejamos.

Temos aqui reunido um conjunto de ingredientes e de interlocutores que legitima a expetativa de um debate rico e muito produtivo. Deixo a todos votos de um ótimo trabalho.

 

Muito obrigado.


[1] Preparado para apresentação.

 

Referências

Banco de Portugal (2018), Boletim Económico, maio 2018

Bloom, N., R. Sadun, J. Van Reenen (2016), Management as a Technology?, NBER Working Paper No. 22327, Revised in October 2017

OECD (2018), Economic Policy Reforms 2018: Going for Growth Interim Report, OECD Publishing, Paris, https://doi.org/10.1787/growth-2018-en. 

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