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Entrevista do Governador, Carlos da Silva Costa, ao Expresso

Tem a sensação de que a sua imagem vai estar sempre colada a estes aspetos mais negativos? 

A minha imagem vai estar associada à resposta aos desafios, que foram enormes. A resposta à grande crise financeira, à crise da dívida soberana, à perda de acesso aos mercados por parte da República. Depois foram os factos relacionados com a resolução de dois bancos — o BES e o Banif — e de seguida a venda do Novo Banco, que resultou dessa resolução. E agora, no final do mandato, a crise resultante da pandemia covid-19 e que tem grandes implicações para a economia. E como o sistema bancário é o reflexo da economia, vai ter também grandes implicações para os bancos, se não soubermos tomar as medidas que são necessárias. 

 

Tudo aspetos negativos... 

O que é negativo ou positivo? O negativo era se não tivéssemos salvaguardado os depósitos dos depositantes — não houve um euro perdido em matéria de depositantes. O negativo era se tivéssemos uma interrupção do financiamento da economia — e os bancos nunca tiveram uma situação em que não pudessem responder ao pedido de crédito. Depois, não tivemos necessidade de aplicar controlos aos movimentos de capitais, não tivemos depositantes a colocar o dinheiro fora do país. Se olharem para o financiamento à economia e para a evolução dos depósitos e compararem com o caso de outros países da zona euro que tiveram problemas da mesma natureza, verificam que a confiança dos depositantes se manteve intacta, que a confiança das empresas na capacidade dos bancos de fornecer crédito se manteve e, sobretudo, que não houve, de forma nenhuma, fuga de capitais. Este é o grande balanço deste período. 

 

Pelas suas palavras, é um balanço positivo, mas a imagem a que, muitas vezes, o associam não é essa. Sente-se injustiçado? 

As críticas só me preocupam se são feitas em nome do interesse geral. Se as críticas são feitas em nome de interesses particulares, compreendo-as, mas não as posso aceitar. Se me estivessem a fazer uma crítica demonstrando que havia uma via alternativa com menores custos, eu aí teria de reconhecer, em nome do interesse geral, que ter-se-ia podido fazer melhor. 

 

E não havia alternativa? Quando olha para trás, não sente que podia ter feito outro caminho? 

Fizemos melhor do que os outros com que somos comparados. Fizemos recapitalizações através de empréstimos públicos que foram reembolsados com vantagem para o Estado. Fizemos recapitalizações com a obrigação de reconstituir o capital, como foi o caso do Banif — que fracassou por razões que não têm a ver com o Banco de Portugal. E tivemos de intervir numa situação em que não houve capacidade para recapitalizar, que foi o caso do BES, cujas alternativas eram a sua liquidação ou resolução. 

 

Uma resolução muito criticada... 

Era a única que minimizava os custos para a economia, era a única que salvaguardava os depositantes e era a única que insistia num ponto que é a chamada partilha dos custos pelos acionistas e pelos credores seniores, de acordo com as regras de resolução. 

Uma solução cuja recapitalização é feita pelo sistema bancário no seu todo, através do Fundo de Resolução. Como este não está capitalizado, teve de beneficiar de um empréstimo do Estado, mas é um empréstimo que vai ser reembolsado ao longo do tempo, como qualquer outro empréstimo. 

 

Acha que as críticas que lhe fazem são ataques pessoais? 

Não. Acho que é legítimo que interesses particulares se considerem afetados e manifestem essa insatisfação. 

 

Que interesses particulares? 

Imagine um acionista. O acionista de um banco português, de um banco espanhol ou de um banco grego tem naturalmente uma deceção no dia em que é chamado a participar no bail in do banco, ou seja, na absorção das perdas. Imagine grandes devedores que viviam numa paz tranquila com o sistema bancário... é natural que o processo que levou à clarificação da situação não seja do seu agrado. 

 

Mas as críticas que lhe eram dirigidas eram ao nível dos agentes políticos... 

E são perfeitamente aceitáveis. Convivo com elas desde que seja explicitado o interesse geral que as anima. Fui o primeiro a rever se houve alguma coisa que pudéssemos ter feito de forma diferente. 

 

Consegue identificar alguma coisa que teria feito de forma diferente? 

Quando adotámos a lei sobre a resolução, o Banco de Portugal assumiu um ónus que não estava à espera de ter. Acho que se devia ter feito um rebalanceamento, mas quando se está na frente, face a uma urgência, não se vai repensar o que se deve ter de fazer. 

Outro exemplo foi a articulação entre supervisores. Sempre defendi que era possível ter uma articulação melhor, mas isso depende da capacidade das pessoas e instituições em responder a esse apelo. Hoje, o Conselho Nacional de Supervisores Financeiros trabalha de uma forma exemplar, e não houve nenhuma alteração, a não ser ao nível das pessoas e da vontade das instituições. Já o Conselho Nacional de Estabilidade Financeira continua a ser uma entidade adormecida. Dependia do Banco de Portugal? Não. O Banco de Portugal não convoca este Conselho. 

 

Quem o convoca? 

O Ministério das Finanças. Não é uma crítica, é apenas uma aspiração. Sempre achei que a arquitetura de supervisão necessitava (e necessita) de alguns reforços. Isso consta do documento que o Banco de Portugal entregou oportunamente e do projeto de lei orgânica que entregámos em 2012 ao Ministério das Finanças. É preciso que quem tem uma responsabilidade tenha as competências adequadas, tenha os poderes, sob pena de ser responsabilizado por aquilo que não pode garantir. 

 

Diz que a coordenação entre os vários supervisores melhorou. Curiosamente, houve alterações de mandato nos outros supervisores, mas no Banco de Portugal não. Isso é também fruto das pessoas que estavam à frente dos outros supervisores? 

É fruto das circunstâncias, do facto de todos estarmos demasiado absorvidos por problemas correntes que não nos davam a capacidade para refletir sobre o que era importante mas que não era tão urgente. E do facto de se terem aliviado desconfianças entre instituições, o que facilita o diálogo. 

 

Havia alguma desconfiança com os outros supervisores quando eles eram dirigidos por outros... 

É uma boa questão. E já vem de trás. 

Esta arquitetura foi criada antes de eu cá chegar. O que aconteceu foi uma espécie de desanuviamento progressivo, até chegarmos ao ponto onde estamos. 

Hoje temos um secretariado permanente do Conselho Nacional de Supervisores Financeiros, temos uma atitude muito ativa de acompanhamento de diálogo entre os três supervisores e, para terem uma ideia, estamos a fazer reuniões semanais ou quinzenais de acompanhamento à atual situação de crise, o que mostra uma grande proximidade. 

 

Houve divergências e animosidade entre o Banco de Portugal e a CMVM no tema dos lesados do GES. Os pareceres em relação às soluções adotadas divergiram muito. Teria sido importante uma maior articulação nessa altura? 

A posição do Banco de Portugal foi a posição que foi confirmada em matéria de direitos judiciais. Sempre dissemos que o papel comercial era uma questão que não releva das obrigações dos bancos. Eles não eram os emitentes do valor mobiliário, mas antes colocadores do mesmo. Não eram pois os responsáveis, a não ser que se verificasse o chamado miss selling, uma venda abusiva. Isso acabou por ser generalizadamente aceite, e o que se verificou depois foi uma solução, que eu prezo, para encontrar uma resposta à insatisfação dos portadores desse papel comercial que não tem nada a ver com as decisões do Banco de Portugal. 

A comercialização de papel comercial está subordinado às regras do mercado e está, portanto, submetido à vigilância do mercado, nos termos da lei. 

 

Voltando ao balanço geral, qual foi o momento mais difícil do seu mandato? 

Houve tantos momentos difíceis... 

 

Não consegue enumerar? 

Consigo. O primeiro foi quando começámos a sentir que o programa de ajustamento era necessário, que nos estávamos a aproximar de um risco de default da República a partir de janeiro de 2011. 

 

Nessa altura tinha um amigo como ministro das Finanças [Teixeira dos Santos]. Foi mais fácil? 

Nesse momento tive a convicção de que o ministro das Finanças estava tão consciente do problema como eu, tinha obviamente limitações, que resultavam de um diferente papel que lhe cabia, e estava também à procura de uma solução. Por exemplo, quando os presidentes dos bancos o visitaram, convidou-me para estar presente, e isso demonstra uma grande convergência de preocupações. O facto de ao longo de todo esse processo termos tido a ocasião, por várias vezes, de fazer verificação recíproca de informação, significa que estávamos conscientes. Mas cada um estava a desempenhar o seu papel. Mal vai, o Banco de Portugal ou o Ministério das Finanças, se um dos atores se substituir ao outro. 

É necessário uma dialética e pontos de vista convergentes, mas formados a partir de ângulos diferentes. 

 

Voltando aos momentos mais difíceis... 

O segundo momento é, obviamente, a negociação do programa de assistência económica e financeira. Houve momentos em que foi necessário afirmar perante a troika que a proposta não era adequada, houve alguma fricção, para não dizer muita fricção. Felizmente, fomos convincentes. O terceiro foi quando tivemos de fazer a verificação da situação do sistema bancário. Passou-se em revista os balanços dos bancos através de auditorias externas, e foi nesse contexto que foram identificadas as necessidades de capitalização. O quarto é o momento em que verifico que o Grupo Espírito Santo, área não financeira, estava com enormes dificuldades, e tenho de decidir o isolamento para evitar que a área não financeira contagiasse e arrastasse o banco. O quinto momento é quando constato, no final de julho de 2014, que os problemas do BES estavam ocultos e que eram de uma dimensão e de uma natureza totalmente desconhecida para o Banco de Portugal — e pelos vistos também por parte do Conselho de Administração e pelo auditor externo. Um outro momento importante, e é nessa mesma ocasião, é quando descobrimos, através do Banco Nacional de Angola, que a situação do BES Angola era muito diferente daquela que nos tinha sido reportada. 

 

E depois a resolução... 

A resolução, tendo sido feita com a criação do banco de transição, vai ser vista como talvez a que menos impactou em termos de estabilidade financeira e a que mais preservou quer o financiamento da economia quer a confiança dos depositantes. Ter numa segunda-feira uma marca no mercado e conservar a confiança dos depositantes é um facto notável. É verdade que é um grande desafio, porque não é fácil fazer uma resolução com a criação de um banco de transição. Duvido muito que alguma vez a autoridade de resolução europeia queira ir por essa via, porque é muito trabalhosa, contrariamente à solução encontrada noutros casos, como a venda dos ativos a outro banco ou pura e simplesmente a liquidação. 

 

Na banca, quem mais o desiludiu? 

Aqueles que assumiram riscos para os quais não tinham capital ou para os quais não tinham mandato dos acionistas. 

 

Eram muitos? 

Alguns. Os acionistas que não foram consequentes e que tiveram um apetite de risco para o qual não forneceram o capital. O facto de termos tido um sistema em que os bancos serviram como alavancas de projetos empresariais pouco consistentes suscitou grandes questões do ponto de vista da sua solidez em situação de crise. 

 

Teve, portanto, muitas desilusões. 

Diria que tive muitas preocupações. 

 

Curiosamente, nessas desilusões não incluiu políticos. Enquanto governador do Banco de Portugal teve três primeiros-ministros. Qual é que lhe deu mais margem de manobra? 

A independência do Banco de Portugal não depende da conceção de margem de manobra. 

 

Nunca sentiu que a independência do Banco de Portugal estivesse em causa durante os seus mandatos? 

A independência do Banco de Portugal só estaria em causa se eu subordinasse o processo de decisão do Banco de Portugal a terceiros. 

 

Nunca sentiu o seu lugar em risco? 

O governador só abandona o seu lugar ou por vontade própria ou se cometeu os erros que estão previstos e que têm de ser sancionados judicialmente. 

 

Portanto, nunca pensou em sair? 

Claro que não. Não tenho motivo para recear qualquer tipo de decisão judicial sobre o meu desempenho, estou completamente tranquilo. 

 

Alguém o aconselhou a bater com a porta, mesmo em termos pessoais? 

Não. É natural que os meus amigos digam que é preciso ter muita paciência para suportar alguns... É natural que todos queiram ver se a reorientação do banco vai num sentido diferente daquela que está a ser prosseguida pelo governador. Mas também é natural que outros tenham silenciosamente dito: “Espero que ele se mantenha.” Tinha um mandato para exercer. 

No dia em que decidisse atirar a toalha ao chão estava a dar a prova de que a independência do Banco de Portugal pode ser posta em causa ao pôr em causa o governador. 

 

O atual primeiro-ministro, António Costa, fez sempre muita questão de dizer publicamente que não o teria reconduzido se na altura fosse primeiro-ministro. Isso refletiu-se no seu trabalho nos últimos anos? 

De forma nenhuma. É natural que um novo primeiro-ministro queira um novo governador, com um perfil que ele pensa ser o adequado. Nem considero que isso seja uma demonstração de uma vontade de subordinação... é o que é. Tenho um perfil que não é, para alguns, tão simpático. É a vida. Não fazemos aqui nenhum concurso de beleza ou de popularidade. 

 

Em relação à articulação que diz ser necessária com o Ministério das Finanças, sentiu que este seu segundo mandato foi mais complicado? 

Senti que nos momentos em que era preciso trabalhar em conjunto foi possível. A resolução do Banif foi feita com este Governo. A venda do Novo Banco foi feita com este Governo. Em matérias onde era necessário alterar legislação foram dados os contributos do Banco de Portugal. A relação entre o Banco de Portugal e o Governo não é uma relação de câmara de eco. É um diálogo estruturado em função de problemas e tem lugar sempre que esses problemas o requeiram. 

 

Este Governo tentou, e já anunciou que tentará de novo, alterar o enquadramento legal da supervisão financeira e de alguma forma também do Banco de Portugal. Sente que este Governo pôs em causa a independência do Banco de Portugal? 

No dia em que o BCE emitiu um parecer sobre a revisão do modelo de supervisão do sistema financeiro, o Governo e o seu ministro das Finanças disseram que iriam ter devidamente em conta esse parecer. As pessoas não conhecem o enquadramento que resulta da nossa participação no Sistema Europeu de Bancos Centrais e naturalmente tendem a refletir mais num quadro de Administração Pública do que num quadro de relação entre entidades independentes. É natural. 

 

A sua relação com Mário Centeno foi igual à que teve com Teixeira dos Santos ou com Maria Luís Albuquerque? 

A relação institucional e pessoal foi aquela que se impunha a propósito de cada tópico. Nunca tivemos [com Mário Centeno] as dificuldades que tivemos quer no tempo do professor Teixeira dos Santos quer no tempo do professor Vítor Gaspar. Foram dificuldades diferentes e problemas diferentes e, portanto, o relacionamento foi necessariamente diferente. 

De resto, não tenho nenhum problema com o ministro das Finanças. 

 

Acha que o ministro das Finanças o ouve, que tem em conta as posições do Banco de Portugal? 

Acho que sim, por isso é que nos pedem pareceres, por isso é que qualquer proposta legislativa passa por cá. Se nos consultam é porque valorizam o parecer do Banco de Portugal. 

 

Mário Centeno não liderou o Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal, mas é ministro das Finanças, presidente do Eurogrupo e candidato a governador. Como é que, não sendo uma pessoa adequada para liderar o Departamento de Estudos Económicos, pode dar um bom governador? 

Também há políticos que nunca foram ministros nem primeiros-ministros e chegaram a Presidente da República. É a mesma coisa, isto é, cada um segue a sua trajetória em função dos seus méritos. 

 

Mas agora, fruto do percurso de Mário Centeno nestes últimos tempos, já considera que ele poderia ser um bom governador do Banco de Portugal? 

Acho que tem todas as condições para ser um grande governador do Banco de Portugal. E ainda por cima vai receber uma máquina que está rejuvenescida, com muito maiores competências, com uma estruturação muito forte, com um sentido de missão e um foco muito claro. 

 

E não há um problema de incompatibilidade? Pelo facto de saltar diretamente do cargo de ministro das Finanças para o de governador do Banco de Portugal? 

Isso é uma questão sobre a qual não me posso pronunciar de maneira nenhuma. Não estou neste momento em condições de analisar, é uma questão eminentemente política, e cabe aos agentes políticos saber o que é que consideram incompatível ou não. 

 

Passou a primeira parte da entrevista a referir-nos que a sua missão principal foi sempre a preservação da independência do Banco de Portugal. Acha que a passagem de um ex-ministro das Finanças do mesmo Governo diretamente para o Banco de Portugal pode colocar em causa a independência desse banco? 

Tivemos um governador que prezo muito, que já faleceu, o dr. Silva Lopes, que foi ministro das Finanças e que não retirou em nada a independência ao Banco de Portugal. Pelo contrário, foi um dos grandes construtores do Banco de Portugal moderno que nós temos. 

 

Mas isso significa que não vê incompatibilidade ou que dependerá da pessoa em causa? 

Depende da forma como a pessoa interpreta o mandato que lhe está atribuído. Não é uma questão genética, é uma questão de compreensão do mandato e também de atitude. 

 

Seria melhor escolher um governador fora da instituição, como aconteceu consigo, ou neste momento há condições de ter um sucessor de dentro do Banco de Portugal? 

O ideal é olhar para o perfil do governador que se pretende e depois olhar numa perspetiva de 360 graus para as possibilidades de recrutamento ou de convite que existem e, em função disso, ponderar os perfis em causa. Não vejo porque é que estar associado ou não estar associado ao Banco de Portugal pode ser um fator diminutivo, porque não há aqui conflito de interesses entre ser governador e ter sido ou ser parte do Banco de Portugal. 

 

Para fechar esta parte da entrevista, duas perguntas. Acha que faz sentido que os banqueiros sejam alvos de processos de avaliação de idoneidade mas que o governador e os membros da administração do Banco de Portugal não tenham qualquer avaliação? 

Isso não é verdade, porque o futuro governador, tal como eu fui na renovação de mandato, vai à Assembleia da República responder... 

 

Mas isso não é com um parecer vinculativo da Assembleia da República, como sabe. 

Isso é uma questão que depende do equilíbrio institucional no quadro político. Fiz uma proposta, em 2012, que previa que o governador fosse nomeado pelo Presidente da República, por proposta do Governo, e que o presidente do Conselho de Auditoria do banco fosse nomeado pela Assembleia da República, por proposta do Governo. São formas de escrutínio. É óbvio que se alguém vai à Assembleia da República está a expor-se a uma avaliação pública. E é relevante, porque se podem colocar todas as questões que permitem aferir da qualidade e da adequação da pessoa em causa. E não é preciso muito. Não é no caso do Banco de Portugal que a questão se coloca, mas já houve uma das entidades reguladoras onde a Assembleia da República fez esse exercício e não era vinculativo. 

 

É verdade. Já agora, só para fechar, já sabe se pode sair do Banco de Portugal no prazo normal? No fim do mandato? 

A minha obrigação é estar disponível até ao fim do mandato e, tendo em conta que há funções que são inerentes ao governador e que não são delegáveis, estar disponível em nome do interesse geral até o dia em que tomar posse o novo governador. O meu plano é em função daquilo com que me comprometi, que é estar disponível até ao final do meu mandato, dia 9 de julho. 

 

Já sabe o que vai fazer depois? 

É muito difícil. Tive na vida a sorte de ser surpreendido pelas circunstâncias e pelos convites, não quer dizer que a surpresa fosse sempre positiva, mas nunca fiquei a olhar para trás, fiquei sempre a olhar para a frente. 

 

Mas pensa reformar-se ou continuar na vida ativa? 

Espero continuar ativo. Aliás, tenho obrigação, como todos os que fazem parte dos quadros deste país, a partir de uma outra trincheira, de contribuir, e não é por uma questão de rendimento, atenção — tenho direito à minha aposentação —, mas por uma questão cívica. Tenho o direito e o dever de contribuir para uma opinião pública esclarecida e informada e julgo que todos têm obrigação de o fazer — e vejo com muito interesse o facto de alguns colegas continuarem ativos e a emitir opinião, desde que ela seja fundamentada e desde que se mantenham atualizados. 

 

Mas não teve ainda nenhuma abordagem... 

De forma nenhuma. Isso está fora de questão. Aliás, é preciso perceber que tenho um período de nojo, que está previamente estabelecido e que será devidamente respeitado. 

 

Como olha para a crise que estamos a enfrentar neste momento? 

Esta crise é um choque comum à escala internacional que tem efeitos assimétricos na estrutura produtiva. É evidente que a crise pandémica tem mais efeitos sobre os serviços do que sobre a indústria e a agricultura. Tudo vai depender da resposta sanitária e da qualidade da política económica em resposta à crise. 

A prioridade para mim é simples, temos de achatar três curvas: a curva dos infetados, para evitar o colapso do sistema de saúde; a curva do desemprego, o que significa que temos de lutar para que não haja desvinculação entre o trabalhador e a empresa, que haja apenas uma situação transitória de ajuda às empresas; e temos de achatar a curva do NPL [incumprimento bancário]. Se não achatarmos a curva do incumprimento bancário, temos duas realidades preocupantes. Significa que a crise de liquidez levou ao incumprimento ou que depois da crise de liquidez não houve medidas necessárias para reescalonar a dívida das empresas e, portanto, as empresas entraram em insolvência, o que quer dizer destruição de tecido produtivo. Mas tem uma outra consequência muito importante. Se não o fizermos, o capital dos bancos é delapidado, e isso significa dois problemas: a limitação da capacidade de financiamento da economia e da recuperação económica. Na pior das hipóteses, os bancos vão ter de ser recapitalizados em condições que serão muito piores do que as medidas preventivas. É preciso assegurar que o volume de crédito que está em causa é qualificado como crédito cumpridor, o que significa necessariamente que vai ter de beneficiar de uma garantia pública de forma a que se limitem ao estritamente necessário as contingências que resultam desta situação. 

 

Os apoios que o Governo está a dar são suficientes nesta altura? 

É desejável uma resposta frontal e à medida do desafio, que gere confiança nos diferentes agentes sociais e económicos. Estamos a atravessar uma espécie de rio de grandes riscos. Temos de ter consciência de que não basta chegar ao lado de lá, é preciso chegar ao lado de lá e retomar a atividade. Esse é o objetivo. Congelar a capacidade produtiva para a descongelar logo a seguir. 

Mas para a descongelar é preciso que os trabalhadores estejam disponíveis, que as estruturas produtivas não tenham entrado em colapso e que haja financiamento para recuperarem a atividade, fundo de maneio e financiamento. 

 

Está ou não a ser feito o que é desejável? 

Ao ouvir o ministro Siza Vieira estou convencido de que ele está convicto de que tem de seguir esta via. Dada a nossa dependência do sector de serviços, tem de ser atacado numa lógica de “custe o que custar”. Tem de ser depois gerido numa lógica que seja muito credível para os mercados e muito credível para os empresários. 

Temos de assegurar que os empresários não lançam a toalha ao chão. 

 

Essa citação que fez do ministro Siza Vieira parece-me tudo menos inocente... 

Ele tem sido muito convincente. 

 

Acha que todos no Governo o são? 

Talvez assim possa responder... 

Não sei, não presido ao Conselho de Ministros. O que posso dizer é que, se eu perguntar aos meus amigos e a mim próprio, a pessoa que tem sido mais clara tem sido o ministro Siza Vieira. Se consegue depois colar a ação ao propósito é uma questão que ele tem de resolver. Mas é muito importante ter um propósito claro e depois fazer o que é necessário para ter os meios. 

 

Tem falado com o ministro Siza Vieira? 

Não. Temos formulado as nossas opiniões e temos transmitido as nossas opiniões sobre os assuntos... 

 

Mas não seria normal o governador do Banco de Portugal falar com o ministro da Economia sobre estes assuntos? 

Não, o normal é falar com o Ministério das Finanças. 

 

E tem falado com o Ministério das Finanças? 

Temos trocado notas, como é necessário. 

 

E tem falado pessoalmente com Mário Centeno sobre este assunto? 

Quando escrevo, sou muito mais preciso e exato do que aquilo que possa dizer. 

 

Estamos no pior momento da economia portuguesa dos últimos 100 anos? 

É a pior crise que tivemos. Tem uma vantagem e um inconveniente. A vantagem é que não é uma crise que seja desencadeada por mecanismos resultantes da dinâmica económica. É um choque exógeno que se reflete sobre o tecido económico. O inconveniente é que é um choque de uma envergadura como nunca tivemos. 

 

Isso quer dizer que temos de repensar em toda a estrutura da economia? 

Obviamente. Mas pensando sempre que não estamos numa economia dirigida, estamos numa economia que resulta da iniciativa individual. Temos de prever qual é o quadro de incentivos que podemos fornecer para que esta economia, que vai sair debilitada, não só recupere a tonicidade e o nível muscular anterior, mas use essa capacidade muscular de uma forma mais eficiente. 

O que é que vamos fazer com esta economia? Mesmo em sectores que vão ser muito afetados. Temos de pensar como vamos posicionar o nosso turismo... 

 

Por onde devemos então ir? 

Temos de ir pela qualidade, temos de ir pela segurança, temos de ir pelo lado sanitário de um país que tem condições para acolher, para garantir segurança e poder cuidar, se por acaso alguma coisa acontecer. Esta vai ser a grande preocupação, sobretudo das classes mais afluentes e dos grupos etários acima dos 40 anos, que são também os que têm mais poder de compra. Temos de ser vistos como um país em que a confiança é igual a ficar no país de origem. 

 

Temos visto vários governos, incluindo o português, a preparar todos para um novo normal... apesar de tantas limitações de circulação e de liberdade de movimentos. É sobre este novo normal, sem uma vacina ou um tratamento, que se questiona se a economia portuguesa aguenta e pode recuperar? 

Há que distinguir duas coisas. Uma coisa é garantir que a estrutura produtiva está disponível para arrancar e outra coisa é o arranque em si mesmo. Para garantir que está disponível é preciso que não se desmobilize, que não haja destruição do tecido produtivo e do aumento do desemprego em vez de lay-off e, quer num caso quer noutro, isso depende das perspetivas que a política económica lhes der que têm de considerar que é uma espécie de apoio excecional temporário... 

 

Mas esse excecional temporário pode ser prolongado. Ou seja, podemos estar um ano ou dois anos... 

E a alternativa qual é? 

 

É isso que perguntamos. 

Tem-se comparado isto a uma economia de guerra, mas não é nada uma economia de guerra. Numa economia de guerra, o que acontece é a destruição física e depois há uma mobilização para esforço de guerra estatal. Neste caso não há destruição física, há, quando muito, desmobilização moral, que temos de combater. Temos de aproveitar este tempo para equacionar qual é a estratégia que queremos, para incorporar questões resultantes da inovação tecnológica que até agora, por razões de urgência ou por razões de organização, não tinham sido incorporadas. 

E aí é fundamental que o agente público inspire confiança, e isso faz-se dizendo: “Aguente, porque nós estamos ao seu lado.” Não é dizer “vamos levá-lo ao colo”, mas dizer que, “se fizer a sua parte, nós fazemos a nossa e todos vamos conseguir chegar ao lado de lá”. 

 

O Estado fazer a sua parte quer dizer quase sempre injeção de dinheiro, o que significa aumento da dívida pública. Referiu várias vezes que termos uma dívida pública elevada, e continuarmos a ter, é um grande problema. Preocupa-o podermos sair desta crise com um nível demasiado grande de dívida pública? 

Preocupa-me se nós não tivermos uma estratégia credível de gestão das finanças públicas depois. Devemos olhar para estas despesas públicas e perda de receitas como um facto temporário que não altera em nada a vontade e a determinação de consolidação das finanças públicas. É a mesma coisa que alguém que tem o azar de viver numa zona sísmica e a casa ruir em parte. Vai recuperar a casa e depois vai diluir ao longo do tempo a amortização que vai ter de fazer daquele investimento. Nós vamos ter um aumento da dívida pública significativo que vamos ter de amortizar ao longo do tempo, por várias gerações, dado que isto é um acontecimento para um século. 

O acontecimento para um século não pode ser pago por esta geração, tem de ser pago por sucessivas gerações... 

 

Isso quer dizer emissão de dívida perpétua? 

Não. Estou a defender a emissão de dívida tão longa quanto possível. Muito centrada no choque da pandemia. Se possível, devia ser emitida ao nível da União Europeia e convertida em cofinanciamento das despesas nacionais. 

Não sendo possível, tem de ser feita no plano nacional. Mas tem de ficar claro que há uma segregação de dívida que resulta de um facto particular, que não é recorrente e que vai ser absorvido de forma determinada por uma afetação de receitas futuras ao longo de um período longo, e assim o mercado compreende. Significa que o Orçamento de 2021 não deve ter por base o Orçamento de 2020 mais o retificativo, deve ter por base o Orçamento de 2019 e deve ficar lá uma categoria à parte, como aliás acontece nas empresas, que é a amortização dos custos, se quiser o custo do investimento na reparação sanitária e reparação social da economia portuguesa face ao meteorito que nos atingiu. 

 

Ou seja, dois orçamentos? 

Tem de existir separação, segregação, que é para não haver contágio nem haver tentações de tomar o défice de 2020 como métrica dos défices seguintes. O défice de 2020 para os orçamentos seguintes deve ser aquele que está no Orçamento atual. Há um outro Orçamento, que é o Orçamento de resposta ao meteorito que nos atingiu, que é uma espécie de despesa excecional. 

 

Devemos então ter uma dívida sem o impacto da pandemia e uma dívida com o impacto da pandemia, um défice sem o impacto da pandemia e um défice com o impacto da pandemia? 

E explicar aos mercados isso para perceberem que não há nenhum risco... 

Os investidores estão interessados em emprestar e ser reembolsados, estão interessados em comprar títulos de qualquer país que tenha capacidade para o reembolso, sobretudo numa situação em que há excesso de liquidez. 

Criar confiança de boa gestão do processo, separação clara, segregação clara do impacto do meteorito, que foi o choque da pandemia, do que é a despesa corrente e as receitas correntes do Estado. E dar a entender que naquilo que é corrente vamos ao longo do tempo formar uma poupança para diluir ou para absorver a dívida que foi constituída por força deste meteorito. 

 

Deve criar-se um Orçamento para colocar os custos decorrentes da pandemia separado do Orçamento corrente, de forma a evitar a austeridade, é isso? 

Para impedir que haja uma gestão irracional das finanças públicas no futuro, porque se vão confundir questões que resultam do choque com questões correntes pode haver contágio de reflexão, que não é bom... 

Garantir que se mantém o cinto apertado nas outras despesas que não têm a ver com isto? Para manter a credibilidade, mas isso não significa política austeritária. Isso significa apenas consolidação das finanças públicas no horizonte que já vinha de trás. 

 

Acha que isso será suficiente para evitar uma crise de dívidas soberanas em economias como a portuguesa, espanhola ou italiana? 

Depende da forma como projetarmos a trajetória das finanças públicas e da credibilidade dessa projeção a partir do fim da crise. Quando algumas agências de rating já começaram elas próprias a entrar em consideração com a natureza temporária do choque é porque percebem que é preciso ver para lá do choque e saber o que os países estão a fazer para libertar uma poupança necessária ao longo do tempo que absorva o fardo que resulta do choque da crise pandémica. 

 

Está a dizer que tem de haver uma resposta europeia mas que também depende de nós evitar uma nova crise das dívidas soberanas? 

Depende de nós, obviamente. Se considerarmos que o ponto de partida para os orçamentos futuros é o valor do défice depois da aprovação do Orçamento retificativo, estamos a criar um erro com graves consequências na perceção do mercado. Temos de segregar tudo. 

 

Quando fala com outros governadores ou com investidores, que imagem é que eles têm de Portugal? 

É muito positiva, tenhamos consciência disso. E resulta da forma determinada como fizemos o programa de assistência económica e financeira, e o mérito vai para o poder político que não hesitou, vai para o povo português que o compreendeu, ao contrário de outros, e vai para o sector empresarial que o viabilizou através do aumento das exportações e do aumento da atividade económica. Mostrámos uma clara convicção em arrepiar caminho e que o período por que passámos não voltasse a ocorrer. Esses são os fatores vitais. 

 

Primeira parte, Pedro Passos Coelho; segunda parte, António Costa... 

Diria qualidade da política económica por quem a interpretou. É uma partitura. Não tenho nenhum problema na distribuição de naipes dentro de uma partitura, desde que o final seja harmónico. 

 

A pergunta era dirigida a estes últimos dois meses... 

Nestes dois meses ninguém tira conclusões de nada. As conclusões serão tiradas em função da constatação a que se chegar no rescaldo de crise. 

 

E parece-lhe suficiente a resposta europeia? 

Do lado do Banco Central Europeu mais do que suficiente, e de resto é o único... Não digo que não possa ser preciso mais. 

 

E do lado da União Europeia? 

Espero que se concretize um programa que esteja à altura da dimensão do choque a que está sujeita a economia europeia. E sabendo que o choque é comum, os efeitos são assimétricos, estamos numa situação em que é um por todos e todos por um. A situação sanitária não pode ser resolvida se um ficar para trás e também não podemos esquecer que a aceitação da ideia europeia vai depender muito da forma como transmitirmos à população e aos cidadãos a noção de solidariedade e de pertença a uma casa comum. 

 

Ficou um segundo mandato, não tinha fechado a venda do Novo Banco, era importante para si fazê-lo? 

Não. Para já, não temos nenhuma autoridade sobre o Novo Banco que não seja prudencial. Não somos acionistas, o acionista é o Fundo de Resolução e não interfiro nas decisões do Fundo, por consequência não tenho nada a dizer sobre a condução do Novo Banco. O Novo Banco interessa-me como qualquer outra instituição financeira. Fico muito satisfeito sempre que reforçam os rácios de capital, fico muito satisfeito sempre que reforçam a sua eficiência, fico muito satisfeito se recuperam a sua rentabilidade. 

 

A injeção feita no Novo Banco em agosto de 2014 ficou aquém daquilo que o Novo Banco precisaria? Houve uma má avaliação dos ativos tóxicos que lá estavam... porque em 2015 se foi buscar mais €2,2 mil milhões a obrigacionistas... 

Muito simples. No dia 4 de agosto, 3 de agosto, fim de semana, nós trabalhámos com o balanço que nos foi entregue no dia 27 de julho pelo Conselho de Administração do BES. Se o balanço tinha ativos mal avaliados ou não é uma questão que tem a ver com o Conselho de Administração da época e do seu presidente, que nos entregou esse balanço. Tem a ver com o auditor externo. O que aconteceu é natural que tenha acontecido. 

Nós estávamos numa situação em que a qualidade da carteira creditícia dos bancos se ia deteriorando, fruto da crise por que passámos, e a qualidade da carteira creditícia do BES foi-se ainda deteriorando em função de outras circunstâncias que são específicas do banco e que existiam antes da resolução. O que significa que quando nós aqui no banco, no fim de semana de 3 e 4 de agosto, determinámos o montante de capital necessário, era o montante de capital necessário em função daquele balanço, das regras vigentes na altura e da informação disponível à data. Por isso mesmo é que a lei de resolução determina que há um período durante o qual o balanço inicial fica em aberto. A alternativa, se fosse hoje, de acordo com as autoridades de resolução europeias, teria sido subavaliar dramaticamente aquele balanço e imputar muito mais perdas aos credores ou exigir um reforço de capital muito superior. Fechávamos o balanço naquele dia, mas fechávamos o balanço com o risco de subestimação de valor muito grande. Portanto, o que se fez foi, quando se fechou o balanço no final de 2015, para efeitos de contas, estritamente aquilo que a lei determinava, ou seja, atribuir as perdas a quem tinham de ser atribuídas, de acordo com a regra de chamada dos stakeholders. Deste modo, salvaguardaram-se as finalidades subjacentes à medida de resolução e, em especial, a própria estabilidade financeira. 

 

Como estão a correr os processos com os grandes fundos que foram retirados do Novo Banco para o BES mau... 

Correm ao seu ritmo. O Banco de Portugal agiu de acordo com a lei e, portanto, correm ao seu ritmo. 

 

Será o Banco de Portugal a pagar essa fatura se perder? 

O Banco de Portugal agiu de acordo com a lei. 

 

Ricardo Salgado já foi condenado pelo Banco de Portugal. Ainda ninguém pagou. Passaram-se seis anos. A Justiça ainda não produziu nada, nem sequer uma acusação sobre estes casos. Acha que ainda vai ser possível julgar os crimes cometidos no BES? 

Quero acreditar que sim. A Justiça está aí e está empenhada em trabalhar estes casos como outros. 

 

Não há o perigo de estas acusações acabarem em nada? 

Confio na Justiça e na sua capacidade para gerir os calendários em função dos riscos de prescrição. 

 

Há um relatório que nunca foi verdadeiramente divulgado e que tem a ver com o papel do Banco de Portugal na crise do BES. Qual é a conclusão desse relatório? 

As conclusões foram publicadas. É um documento interno de onde foram extraídas todas as conclusões, como tive ocasião de explicar na Assembleia da República e que está completamente absorvido em matéria de procedimentos e formas de atuação. 

 

Teme que os processos que estão em marcha contra responsáveis da banca possam ser atingidos com a sua saída, que possa haver pressões? 

Primeiro, as decisões do Banco de Portugal nunca foram do governador, foram do Conselho de Administração. O Banco de Portugal e o governador têm todo o interesse em consolidar a sua reputação. Seria muito paradoxal que o Banco de Portugal não levasse a “carta a Garcia”, isto é, não concretizasse os processos que lançou, sob pena de se desacreditar. Ora, desacreditar uma instituição é também uma forma de pôr em causa a sua independência. 

 

Vai ser possível o Fundo de Resolução devolver, até 2046, o dinheiro dos empréstimos que fez ao Estado? 

Claro que sim. 

 

Via com bons olhos uma fusão do Novo Banco com o BCP? 

Não estamos numa economia de planificação central nem temos um supervisor que planeie ou desenhe a configuração do sistema. 

 

Faço a pergunta de outra forma. Acha que deve haver mais concentração de bancos em Portugal? 

Temos um nível de concentração que se compara bem com o nível europeu. 

Mas não temos bancos de raiz portuguesa com atividade transfronteiriça europeia equivalente ao que tem Espanha, França ou Itália. 

 

E devíamos ter? 

Não digo que devíamos ter. Esse é um desafio que se coloca aos acionistas dos bancos. 

Querem ser bancos locais? Querem ser bancos regionais? Já que não imagino que tenham capacidade para serem bancos pan-europeus, e isso tem de ser equacionado na sua estratégia. Para isso têm de ajustar, eu diria, o seu plano estratégico da ambição que têm. 

 

Em 2017, Elisa Ferreira dizia que faltava estabilizar o Banco Montepio. Em 2020 considera que está estabilizado? 

O Banco Montepio respeita os rácios prudenciais, está neste momento com um modelo de governance que corresponde às exigências do Banco de Portugal, distinguiu claramente entre acionista e gestão do banco. Além de que reforçou os mecanismos de controlo interno e de auditoria externa para assegurar que o Banco de Portugal tem um acompanhamento da instituição. 

 

Está tranquilo com o Montepio? 

Neste momento, o Montepio inspira as mesmas preocupações que qualquer instituição, que é um dia poder ter necessidade de reforçar o capital. 

 

O que justificou tanta dificuldade para se conseguir encontrar um CEO para o Montepio? 

Isso é uma questão que tem de pôr ao acionista. O Banco de Portugal não escolhe o CEO. 

 

Mas foram testados vários nomes. 

Nós só testamos quem se apresenta. 

 

Houve testes informais... 

Não há testes informais. Há uma indicação por parte do acionista que pretende nomear A, B ou C, e é natural que nos consulte sobre a possibilidade de ele passar nos critérios de idoneidade. 

 

Houve dificuldades nesse sentido, nos candidatos que apresentaram? 

Não conheço todos os candidatos. A única coisa que posso dizer é que os nossos serviços analisaram os que foram aprovados, e os que foram aprovados satisfaziam os critérios. 

 

Porque é que demorou tanto tempo para afastar o dr. Tomás Correia da liderança do banco, onde esteve até 2015, quando já havia processos de contraordenação em marcha? 

Não se esqueça que a legislação sobre idoneidade foi alterada em finais de 2014 e que só a partir daí é que o Banco de Portugal teve os poderes que eram necessários para o efeito. 

 

E houve alguma pressão com o dr. Tomás Correia nesse sentido? 

Seguramente que se ele se afastou foi porque o Banco de Portugal sinalizou que era necessário haver uma separação de governo entre as duas instituições e que era conveniente encontrar a figura de um chairman e a figura de um CEO que não tivessem a ver com a instituição Associação Mutualista. 

 

Como é que em 2020 ainda há processos de contraordenação a bancos de reduzida dimensão de capitais angolanos, estou a falar do EuroBic, BNI Europa e Atlântico Europa? Estes processos estão ainda por concluir quando já foram abertos em 2016... 

Há que distinguir duas coisas completamente distintas. As inspeções que determinaram os factos e depois os processos que seguem essas inspeções. São dois tempos distintos, porque o processo implica um conjunto de garantias que não permitem a conclusão antes de um determinado tempo. 

 

Mas não é muito tempo? 

Foi o tempo possível face à urgência de outros dossiês muito mais complicados. 

 

Se houvesse uma avaliação de popularidade ao governador do Banco de Portugal, que nota é que acha que os portugueses lhe davam a si? 

Eu ficava muito preocupado se um governador do Banco de Portugal estivesse sujeito a uma avaliação de popularidade, porque significava que a sua independência estava comprometida. Eu trabalharia para a popularidade e não para o mandato. Ora, o mandato é incompatível com a noção de popularidade. 

 

Então, o governador do Banco de Portugal é dessa forma um polícia mau? 

Não. É uma entidade que tem de cumprir o mandato. Às vezes é menos simpático, porque exige, em nome do interesse geral, ações que podem conflituar ou podem atacar alguns interesses particulares, e quando esses interesses particulares têm capacidade para se ouvir na praça pública pode ser objeto de impopularidade. 

 

Sabia, quando aceitou o cargo de governador, que ia ser assim? Tinha noção de que ia ser tão difícil? 

Tinha noção de que ia ser difícil, não tinha noção de que ia encontrar debaixo da carpete alguns casos. 

 

Esses casos que encontrou debaixo da carpete já existiam? Eram casos que herdou, digamos assim? 

As situações, os problemas dos bancos criam-se ao longo do tempo, e é preciso muito tempo. Se pensamos que os problemas dos bancos nasceram ontem, no ano passado ou há dois anos, estamos enganados. Os problemas que encontrámos em 2010, 2011, 2012 são fruto de décadas de práticas e de entendimentos que eram incompatíveis com a estabilidade financeira e a robustez das instituições. 

 

Mas continuaram durante o seu mandato... durante parte do seu mandato. 

Não continuaram, porque foram objeto de observação atenta desde o dia em que eu tomei posse. Alguns dos factos só se conseguem determinar já depois de algum tempo decorrido, mas quem é que determinou as auditorias externas? Quem é que determinou o ETRICC 1 e o ETRICC 2? Quem é que fez o ring fence? Quem é que determinou a saída do Conselho de Administração de alguém que até à época era considerado intocável? 

 

Sente que vai viver com tudo isto em cima dos ombros o resto da sua vida? 

Eu tenho uma vantagem, vivi muito tempo fora do país, e viver fora do país significa que não tenho guarda-chuva, mas também não tenho dependências. 

 

Sente que foi mais um bombeiro, no sentido de apagar vários fogos, do que um polícia, no sentido de evitar os estragos que aconteceram na banca portuguesa? 

Nenhum dos supervisores europeus faz o segundo papel. Os supervisores europeus atuam quando têm indícios, e os indícios implicam atos anteriores. 

Não há problema nenhum. O meu papel aqui — e é esse que eu gostaria que fosse recordado — é o de alguém que defendeu a independência do Banco de Portugal, alguém que reorganizou o Banco de Portugal e o reestruturou e o dotou de competências. Alguém que assegurou a participação na União Bancária com sucesso e alguém que lançou os fundamentos de uma prática bancária mais transparente e mais orientada para o interesse geral. Obedecendo ao interesse geral e não a interesses particulares. 

 

Não se aborrece de não ter descoberto o BES, que já estava há tanto tempo mau? 

Todos gostariam de ter uma varinha de condão para fazer a transformação da abóbora em carruagem, todos gostariam também de ter uma varinha daquelas que descobrem a água que permitisse ver o que está debaixo das realidades mais espessas. Trabalhamos com os instrumentos que temos, e, quando o governador fala, não fala o governador, falam 1700 colaboradores que estão por trás dele, e é o esforço deles todos e a diligência deles todos que me permite a mim dar voz.

 

Fazia falta Mario Draghi neste momento no BCE perante esta crise? 

Cada personalidade tem o seu estilo e cada estilo exige circunstâncias complementares. Estou convencido de que, através da colegialidade, se irá encontrar forma de ajustar um estilo a um problema. 

 

O Banco de Portugal deve usar ou pode usar de uma forma mais expressiva e reforçar a distribuição de dividendos para ajudar as finanças públicas nesta altura? 

O Banco de Portugal deve manter estabilidade de critérios. O que significa manter um critério de constituição de provisões que permita salvaguardar a independência do Banco e simultaneamente remunerar o Estado. Foi o que fizemos e continuaremos a fazer, tendo em conta as diferentes rubricas do balanço e tendo em conta a natureza dos riscos associados. 

 

No passado foi pressionado para distribuir mais dividendos. Está a ser outra vez pressionado? 

Não. Julgo que no momento em que se percebeu qual era o quadro em que se movimentava o Banco de Portugal, quais eram os riscos que tinha de enfrentar, qual era a cobertura adequada, a questão se desvaneceu. 

 

Os mercados vão olhar para Portugal e para os países que estão afetados pelo mesmo mal, mas partimos em desvantagem em relação a alguns desses países. Embora no bom caminho, o país ainda tem uma dívida robusta e será sempre comparado com aqueles que têm uma dívida menor. Como gerir isso? 

Como era agora. 

 

Exato, mas agora estávamos numa ascendência e já estamos a regredir... 

Isto é como a subida da água: quando sobe a água na marina, os barcos sobem todos. Aqui a dívida de todos vai subir. 

 

Não vê então qualquer desvantagem do ponto de partida de Portugal em relação aos seus pares? 

Não há uma desvantagem, há um desafio. E o desafio é ser muito mais credível, muito mais convincente, acerca da gestão da dívida excecional que há de resultar deste choque. E, claro, da capacidade de manter uma trajetória de finanças públicas compatível com o reembolso da dívida. 

 

Faz sentido falar de um plano de investimentos públicos alargado com a recuperação da economia? 

Um plano de investimentos públicos tem associado um projeto de reorientação económica. 

 

Um investimento público racional? 

Inteligente. 

 

É possível voltarmos a falar em austeridade? 

Há aí uma confusão pública. Estamos a viver dificuldades, esconder esse facto seria uma tolice. Outra coisa é a política económica que há de acompanhar essas dificuldades. Nesta fase, a política económica tem de estar muito presente para salvaguardar o eixo sanitário, o eixo do tecido produtivo e o eixo humanitário. 

 

Há um ponto que ficou para trás. As moratórias de não pagamento de juros e capital sobre os empréstimos bancários têm obviamente um impacto na vida das empresas, das famílias e dos bancos. Não há aqui o risco de, no fim do prazo de moratórias, a dívida que resulta ser já demasiado grande para ser suportada nessa altura? 

Temos de combinar moratórias com reescalonamentos. 

 

Mas neste momento só existem moratórias. 

É desejável que no final da moratória haja um processo de reescalonamento. E que as moratórias e os reescalonamentos não impactem sobre o capital dos bancos, porque, caso contrário, a capacidade de financiamento dos bancos vai ser absorvida, e em grande medida, por esta situação. 

 

É esse o receio para os bancos? 

Não necessariamente. Eles continuam a cobrar taxas de juro, o que convertem é em dívidas de maior maturidade. A questão que se coloca para os bancos é assegurar que nem a dívida que entra em moratória é considerada como estando em incumprimento, nem o reescalonamento dá lugar a considerações de incumprimento. O que significa que é preciso que haja garantia pública associada a este processo. 

 

Uma garantia pública para o reescalonamento da dívida? 

Para a moratória e para o reescalonamento. Na moratória a garantia pública não é decisiva, porque a moratória em si é considerada suficiente, desde que seja feita de acordo com as regras da Autoridade Bancária Europeia e do SSM, mas depois, o reescalonamento é preciso que seja feito com uma garantia pública associada, de forma a não haver perda de qualidade de crédito. 

 

Um reescalonamento de quantos anos? 

As contas são simples. Imaginem uma empresa que perde três meses de receita, o que significa que vai ter de recuperar três meses de receita ao longo do período futuro. Se lhe pedirem para recuperar no próximo ano três meses de receita, é impossível, mas se lhe pedirem para recuperar ao longo de cinco ou seis anos, isto significa recuperar 5% ou 6% de cash flow ano a ano. Isso é possível e é gerível. Na prática, o que estamos a falar não é difere do sector público. No mercado estamos a dizer que precisamos de uma dívida adicional, que vamos amortizar no tempo, e vamos gerar poupança para amortizar no tempo. A empresa precisa da mesma coisa, que é uma dívida adicional que vai ter de diluir no tempo. 

 

Mas ainda não há essa garantia... 

Virá o tempo em que as pessoas hão de entrar em consideração com essa necessidade, espero. 

 

Também é preciso prolongar o prazo das moratórias? 

Sim. O prazo da moratória foi pensado para uma crise curta e nós estamos perante uma crise que vai ser mais longa. 

 

Esse ponto é muito importante. A crise vai ser mais longa. Quanto tempo é que os bancos aguentam nesta situação? Porque há um limite para aquilo que os bancos aguentam... 

Os bancos têm uma almofada de capital e da libertação das reservas cíclicas de €12 mil milhões. É bom que essa almofada seja utilizada para efeitos de recuperação. Portanto, o tempo é o tempo que lhes for dado pela política económica. 

 

Mas os bancos têm sido alvo de críticas públicas por não estarem a ajudar tanto como deviam ou podiam. Os bancos têm capacidade neste momento para fazer mais? 

Os bancos estão a responder a todos os pedidos de crédito de forma adequada. É preciso não confundir concessão de crédito com subvenções ou transferências. Os pedidos de créditos têm por base uma análise de risco adequada. Estão apoiadíssimos pela concessão de liquidez por parte do sistema europeu de bancos centrais. Não há problemas de liquidez para os bancos comerciais portugueses. O que há aqui é apenas uma necessidade de salvaguardar o capital para novo financiamento não o consumindo para atacar os problemas que podem resultar da crise no que toca à qualidade da carteira de crédito. 

 

Portanto, as críticas aos bancos são injustas. 

Não estou dentro dos processos. O Banco de Portugal não desenhou o processo da concessão de crédito e, portanto, não pode sequer estar a avaliar se está a ser diligentemente gerido. Os bancos têm todo o interesse em conceder crédito, desde que esse crédito seja recuperável, e se não for recuperável nós não temos interesse que os concedam. O que temos de perguntar é, porque é que o crédito, por vezes, não é concedido? 

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