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Entrevista do Administrador Hélder Rosalino ao Jornal de Negócios: "Contas bancárias passam a ser uma matéria-prima"

O Parlamento já está a discutir a proposta do Governo para a transposição da nova directiva dos pagamentos. Estas novas regras colocam desafios a bancos e consumidores, mas representam também oportunidades, diz Hélder Rosalino.

Os pagamentos vão sofrer transformações profundas, nos próximos meses, com a transposição da nova directiva dos pagamentos, a PSD 2. Hélder Rosalino, administrador do Banco de Portugal, acredita que esta directiva "pode ser relativamente equivalente àquilo que aconteceu com a Uber, que alterou muito aquilo que é a oferta de serviços na área dos transportes colectivos". 

 

Os bancos nacionais estão preparados para as novas regras dos pagamentos que entrarão em vigor com a nova directiva, a PSD 2? 

Esta directiva traz uma exigência aos bancos, que é a exigência de permitir o acesso às contas dos clientes. As contas bancárias deixam de ser um exclusivo dos bancos, passando a ser permitido o acesso às contas por parte de prestadores de serviços. Os bancos têm aqui uma exigência tecnológica, ou seja, têm que criar plataformas seguras. A SIBS está a desenvolver uma solução que cobre as necessidades de todo o sistema bancário. Depois há bancos que, naturalmente, podem eles próprios estar a desenvolver soluções tecnológicas que possam ser complementares desta solução cooperativa. 

 

Mas este será um grande desafio para os bancos?

Será porque vão ter que enfrentar, desde logo, este desafio tecnológico. E esta dimensão tecnológica é uma dimensão que talvez não seja a mais complexa de enfrentar. Mas a outra dimensão da alteração do próprio modelo de negócio é a questão mais pertinente. Como é que o nosso sistema bancário se posicionará num contexto em que é dado acesso às contas dos seus clientes? E aqui os bancos não estarão de braços cruzados. 

 

O que podem fazer? 

Um dos serviços mais inovadores que a PSD 2 traz é o serviço de agregação da informação, ou seja, entrar nas nossas contas e recolher informação, fazer uma leitura do nosso perfil financeiro e, a partir daí, acrescentar valor. O facto de passarem a ser acedíveis por outras entidades vai fazer com que as contas bancárias sejam uma espécie de matéria-prima, para em cima delas poder desenvolver serviços de valor acrescentado e, no fundo, criar um conjunto de ofertas complementares aos clientes. E os bancos admitem eles próprios funcionar como agregadores de informação e fazer esses serviços. 

 

Que impacto é que isso pode ter no que é oferecido aos clientes? 

Há quem diga que, de facto, isto vai alterar a cadeia de valor da prestação de serviços financeiros que hoje é muito estável, porque outras entidades vão aceder à nossa conta, vão ter parcerias, ter produtos complementares, informações e vão oferecer novos serviços. Outras ofertas vão ser criadas e outros modelos de negócio vão florescer e é aqui que o sistema bancário tem naturalmente de fazer uma reflexão. Os bancos não vão querer perder esta oportunidade. No final, quem acaba por beneficiar é o consumidor. 

 

De que forma?

A Comissão Europeia entendeu que era importante alterar este paradigma de dominância dos grandes bancos que, no fundo, não permitia uma concorrência e levava a que os clientes bancários tivessem que suportar talvez custos excessivos nesta dimensão de pagamentos. Assim, a ideia é que os bancos partilhem os dados dos clientes para impulsionar a competitividade. Naturalmente que estas novas entidades vão estar sujeitas a um escrutínio e a um processo de autorização que também é exigente. Mas os consumidores vão poder partilhar os seus próprios dados com outras entidades que lhes vão oferecer serviços mais completos, eventualmente a custos mais baixos e que vão naturalmente tentar desenvolver aquilo que é a experiência do utilizador no domínio dos pagamentos. 

 

No fundo, vai transformar a realidade dos pagamentos? 

Aquilo que se vai passar com a PSD 2 pode ser relativamente equivalente aquilo que aconteceu com a Uber que veio fazer uma transformação da lógica de utilizar transportes colectivos, através de uma dimensão digital alterou-se muito aquilo que é a oferta de serviços na área dos transportes colectivos. O Airbnb a mesma coisa. Ou seja, o acesso à informação vai permitir que um conjunto de entidades possa desenvolver soluções que podem vir a transformar a oferta financeira. 


"Pagamentos imediatos vão estar totalmente implantados este ano" 

 

Estão a ser desenvolvidas duas soluções no âmbito dos pagamentos imediatos: uma delas é nacional e a outra é da responsabilidade do BCE. O grau de adesão a estes pagamentos vai depender da estratégia seguida pelos bancos na sua promoção. 

Além da transposição da PSD 2, os pagamentos imediatos vão também trazer transformações ao mercado nacional. Hélder Rosalino acredita que estes pagamentos estarão completamente implementados em Portugal, no final do ano. 

 

Recentemente, a Autoridade da Concorrência (AdC) publicou um estudo em que são detectadas barreiras à entrada das “fintech”. Como é que o Banco de Portugal vê esta questão? 

Em primeiro lugar, é muito positivo que a AdC tenha feito essa análise, é interessante que olhe para este sector e que o avalie do ponto de vista daquilo que é o grau de concorrência e o grau de abertura. É evidente que a AdC fá-lo na perspectiva da implementação da PSD 2 e esta ainda não está implementada. Em geral, diria que o documento produzido é mais um documento de alerta relativamente às condições que devem ser criadas no futuro do que aquilo que existe actualmente no mercado nacional. 

 

Como vê o mercado actualmente? 

O mercado nacional tem de ser entendido numa perspectiva de longo prazo nesta área dos pagamentos. É preciso perceber que há algumas décadas foi criada uma entidade como a SIBS e foi a promotora de um sistema de pagamentos em Portugal muito desenvolvido, muito pioneiro. Temos serviços de pagamentos em Portugal que não existem noutros países da Europa e temos uma rede Multibanco que é um caso de sucesso a nível mundial. Claro que agora o nosso sistema é confrontado com a necessidade de se reequacionar e de se reposicionar numa perspectiva mais pan-europeia e é isso que está a fazer. 

 

Os bancos nacionais estão, neste momento, a preparar uma solução para os pagamentos imediatos. Quando estará disponível? 

Há dois projectos a correr em simultâneo para a introdução de pagamentos imediatos. Há uma que é uma solução nacional, desenvolvida pelos bancos e também pela SIBS, com a característica de ser uma solução que tem de respeitar os requisitos técnicos europeus. Soluções de pagamentos imediatos já existiam em vários países, inclusive em Portugal temos uma solução de pagamentos imediatos, o MBWay, a questão é que o BCE pretende uma solução de pagamentos integrada europeia porque estamos numa área SEPA, uma área única de pagamentos em euros. A nossa expectativa é que a solução nacional seja disponibilizada muito em breve, em Junho, Julho. Depois há uma outra solução que está a ser desenvolvida pelo BCE e que todos os países podem utilizar. O BCE de alguma maneira está preocupado com o facto de poder vir a não ter todos os países a desenvolver estas soluções em tempo e resolveu criar uma solução ele próprio. É uma solução que vai estar disponível em Novembro. Estas duas soluções vão co-existir. 

 

Mas porquê duas soluções? 

Porque a solução do BCE é uma solução simples, que serve os pagamentos imediatos de uma lógica básica no sentido em que não tem serviços de valor acrescentado associados. O que a solução nacional e de outros países acrescenta? É um conjunto de serviços adicionais de gestão de tesouraria, de alertas, todo um conjunto de valor acrescentado. A nossa expectativa é que os pagamentos imediatos, no final deste ano, estejam completamente implementados em Portugal e que, dentro de algum tempo, sejam uma solução com grande relevância nos pagamentos de retalho, a nível nacional e europeu. 

 

Há alguma estimativa de quanto é que podem vir a representar? 

Depende muito da promoção que os bancos façam. Se os bancos tiverem um plano de negócio, vão pôr os pagamentos imediatos como uma oferta importante. A adesão e o nível de implantação das soluções de pagamentos imediatos vão depender muito daquilo que for a oferta dos bancos, de tudo aquilo que for o contexto envolvente. Por exemplo, a Holanda está a descontinuar tudo o que são débitos directos e transferências a crédito porque quer promover os pagamentos imediatos como a base do seu sistema de pagamentos.