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Artigo de opinião do Vice-Governador, Luís Máximo dos Santos, no Jornal Económico: "Somos Comunidade"

Por mais distantes no tempo, todas as pandemias conduziram a profundas alterações sociais, mesmo que, muitas vezes, a História não as tenha valorizado suficientemente enquanto fator de advento de novos tempos.

A pandemia da Covid 19 não vai ser exceção. Tem sido interessante o debate sobre se a pandemia está, sobretudo, a acelerar tendências já em curso ou se, mais do que isso, irá gerar “um verdadeiro novo mundo”, seja, por exemplo, na ordem geopolítica e geoeconómica mundial, na estruturação dos regimes políticos, na transformação digital do nosso modo de vida, na maneira como trabalhamos e, em última análise, como nos relacionamos e vivemos. Provavelmente as duas perspetivas estão certas, pois não se excluem, antes convergem, uma vez que, na verdade, a tremenda aceleração das tendências que já se manifestavam é, só por si, algo suficientemente poderoso para gerar o dito “novo mundo”.

O distanciamento social contraria a essência do ser humano. Nós não existimos sem os outros; precisamos da sua proximidade para nos realizarmos e sermos felizes. Mesmo o “homem digital” precisa de grandes celebrações coletivas. Da comunhão que advém de participarmos numa celebração religiosa, numa celebração política, de partilharmos o prazer das artes, ou mesmo, mais prosaicamente, a paixão por um desporto ou um clube.

Por isso, sendo neste momento a necessidade do distanciamento social um facto, que se espera transitório, todas as políticas públicas – em especial a económica -, têm de colocar os seus instrumentos ao serviço da preservação do essencial: garantir que continuamos a ser uma comunidade e não um arquipélago de impotências. Se perdermos isso, perdemos tudo. 

Não por acaso, a fraternidade – uma palavra / conceito que, há demasiado tempo, quase não pode ser escrita sem gerar nos leitores um sorriso cínico -, está no centro do cristianismo, mas foi também um dos lemas da Revolução Francesa.

Uma pandemia é algo tão atentatório da condição humana que olhá-la como “uma oportunidade” soa a retórica de políticos e gestores pouco inspirados. Coisa diferente é dizer que o nosso futuro será ditado pelo modo como formos capazes de lidar com ela.

A pandemia uniu o mundo nas mesmas preocupações. Não atingiu os países e os habitantes por igual, mas em todos despertou o sentimento da eterna fragilidade do ser humano, o medo de soçobrar. Quebrou o sentimento de omnipotência do Homem que a tecnologia vinha alimentando, fez-nos relembrar que, apesar dos seus extraordinários êxitos, a ciência tem limitações. 

Iniciado sob o signo do terrorismo apocalíptico, com o 11 de setembro de 2001, o século XXI viu surgirem duas tremendas crises no espaço de dez anos: a crise financeira global e a crise provocada pela pandemia. É muito duro para apenas dez anos.

Se, no caso da “gripe espanhola”, a guerra (Primeira Mundial) espalhou a pandemia, não creio que seja elevado o risco de, desta vez, ser a pandemia a espalhar a guerra. Mas a violência está à espreita sob muitas outras formas.

O melhor antídoto para a prevenir é promover políticas económicas e sociais centradas no reforço dos laços comunitários, que combatam a pandemia da desigualdade - há muito em expansão, mesmo reconhecendo os resultados positivos que, de um ponto de vista mundial, a globalização trouxe no combate à pobreza -, que enraízem o sentimento de que todos contamos, que impeçam que o “distanciamento social” seja o definitivo triunfo da indiferença perante o destino dos nossos concidadãos. 

A economia nunca deveria ter perdido de vista que é uma ciência social. Sabemos que os nossos atuais níveis de consumo não são sustentáveis. Mas a sua indispensável moderação tem de ser feita sem gerar outras formas de insustentabilidade, em especial a da pobreza crescente.