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Artigo de opinião do Governador Carlos da Silva Costa no Público: "Condições para acelerar o desenvolvimento: inovação e qualidade da gestão das organizações"

“Condições para acelerar o desenvolvimento económico: inovação e qualidade da gestão das organizações”

 

Estamos hoje a assistir à muito aguardada recuperação cíclica da economia mundial. Contudo, em muitos países, o ritmo de crescimento económico permanece moderado. A preocupação dominante dos decisores de política é, por isso, compreender os fatores que possam estar na origem do fraco desempenho das economias e impulsionar o crescimento do produto potencial, de forma sustentável e inclusiva, assegurando a estabilidade social e a qualidade do debate público.

 

Isso mesmo foi evidente na temática e nas discussões ocorridas em dois importantes fóruns anuais de política económica recentes, que reuniram banqueiros centrais, académicos e outros especialistas a nível mundial: o ECB Forum on Central Banking que teve lugar em Sintra no final de junho e o Jackson Hole Economic Symposium que teve lugar no Estado do Wyoming nos EUA há duas semanas atrás. 

 

A mensagem transversal a estes dois eventos foi clara: a produtividade é um fator central do crescimento do produto potencial de uma economia sendo, por conseguinte, um determinante fundamental do nível de vida das sociedades no longo prazo e da salvaguarda das preferências reveladas pelas sociedades em termos de equidade social; por isso, é crucial reverter a tendência de desaceleração da produtividade observada nas principais economias avançadas. Importa notar que o crescimento da produtividade já estava a diminuir antes da crise financeira global, mas acentuou-se no contexto da mesma, estando atualmente em níveis muito reduzidos. 

 

Estudos económicos recentes sugerem que as grandes diferenças de produtividade entre empresas e países são explicadas por dois tipos de fatores: inovação tecnológica e qualidade da gestão.

 

Quanto à inovação tecnológica, os resultados disponíveis sugerem que as economias mais inovadoras apresentam quatro características fundamentais: 1) Elevada concorrência - a inovação é uma forma eficaz de as empresas fazerem face à concorrência; 2) Elevada qualidade da educação e predominância de uma cultura de mérito e de empreendedorismo; 3) Mercado de trabalho flexível; 4) Adequação dos sistemas financeiros às necessidades de financiamento das empresas, em particular dos mercados de capitais.

 

A estas quatro características acrescentaria duas condições que considero importantes para reter nas economias as ideias que aí são geradas: 5) O acesso a um mercado de grande dimensão; 6) Capacidade da sociedade para aprender, superando-se, com iniciativas fracassadas. 

 

Isto significa que as políticas para a educação e para a ciência devem estar no topo das prioridades dos países. São também necessárias políticas públicas de apoio à investigação fundamental, que por envolver longos períodos de tempo, elevada incerteza quanto à natureza e quanto à apropriação dos respetivos resultados, não tem lugar nas empresas. 

 

Há que ter em conta, por outro lado, que os ganhos de produtividade implicam uma menor incorporação de trabalho. Para compensar este efeito é necessário um aumento da escala de produção das empresas existentes e novas unidades produtivas - o que significa que é necessário tanto qualidade de gestão que assegure e viabilize o aumento do volume e do valor da produção das empresas já existentes, como capacidade empreendedora para lançar novas empresas, novos produtos e entrar em novos mercados, permitindo redirecionar os trabalhadores que o avanço tecnológico sacrifica e dar emprego às novas gerações que entram no mercado do trabalho. Assim, devem ser criadas condições que favoreçam o empreendedorismo, designadamente reduzindo os custos de contexto, assegurando a estabilidade do quadro regulatório e fiscal e promovendo mecanismos financeiros de partilha do risco.

 

Ainda de acordo com estudos recentes, cerca de 30% das diferenças na produtividade entre países são explicadas por diferenças na qualidade da gestão em termos de eficiência e de ajustamento às dinâmicas tecnológicas e de mercado. Com efeito, a inovação desqualifica produtos e reduz mercados, mas só destrói empresas na medida em que estas não a antecipem e tenham uma carteira de produtos muito expostos à inovação radical em curso, ou não tenham capacidade para absorver o conhecimento e a inovação necessários para se adaptarem às novas condições de concorrência e a novos mercados. 

 

A concorrência nos mercados, as práticas de governo societário, o capital humano e a qualidade da informação são fatores que influenciam a qualidade da gestão. Isto significa que é necessário cada vez mais profissionalizar a gestão das empresas, cujo exercício deve ser legitimado pela competência e não pela propriedade - a qualidade da gestão não é um atributo inerente à propriedade do capital da empresa. São necessárias políticas que combatam barreiras à entrada e que promovam a qualidade, fiabilidade e acesso a informação e, em particular, a difusão e absorção do conhecimento. 

 

Em Portugal, o reduzido crescimento da produtividade observado nas últimas décadas constitui uma limitação à capacidade de sustentar maiores níveis de consumo sem incorrer em desequilíbrios externos. Para termos controlo sobre o nosso futuro temos que ser capazes de aumentar a margem de manobra de gestão das nossas interdependências tanto comerciais como financeiras. É, por isso, dado o atual nível de endividamento, essencial prosseguir com a consolidação financeira dos agentes públicos e privados e, paralelamente, criar condições que favoreçam o investimento e o aumento da produtividade. Só isso nos permitirá ganhar margem de manobra necessária para agarrar o futuro, libertando-nos das amarras do passado. O futuro está nas nossas mãos!

 

P.S. - Ao longo de quase três décadas, o Público foi capaz de se ajustar, renovar e reinventar para responder e acompanhar os desafios de uma economia e sociedade em constante mudança, nunca perdendo a capacidade de oferecer informação independente e de qualidade. O lançamento da edição digital, que responde às preferências de uma nova geração de leitores, é um exemplo da capacidade de inovação do Público. 

Numa altura em que o sector dos media vive uma crise estrutural, é necessário sublinhar à exaustão que uma imprensa livre e independente é fundamental para a criação de um espaço público de debate aberto e de reflexão fundamentada, condição necessária do desenvolvimento sustentado de um país. Parabéns ao Público pelo percurso percorrido e por se ter tornado num espaço de referência do debate público e da reflexão fundamentada, pilares fundamentais da nossa democracia.

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