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Comunicado do Banco de Portugal sobre o Relatório de Estabilidade Financeira de junho de 2022

Nos últimos meses, a economia europeia passou a estar sob o efeito simultâneo de dois choques exógenos sem precedentes e de abrangência internacional. A invasão da Ucrânia pela Federação Russa veio, em algumas dimensões, amplificar o impacto económico da pandemia. Os efeitos nos mercados de energia e de matérias-primas e nas cadeias de abastecimento condicionaram a recuperação da atividade económica e agravaram as pressões inflacionistas. Além do aumento da incerteza, existe um risco ascendente nas projeções da inflação, devido à possibilidade de um conflito mais longo e a constrangimentos adicionais na oferta de energia.

Neste contexto, nas reuniões de junho, o BCE deu continuidade ao processo de normalização da política monetária, anunciando para julho o fim das compras líquidas do APP, mas mantendo a flexibilidade de reinvestimento do PEPP, e o aumento das taxas de juro diretoras. Em setembro, haverá novo aumento, cuja calibração dependerá das perspetivas inflacionistas de médio prazo.

Os principais riscos para a estabilidade financeira são:

  • Uma reavaliação adicional dos prémios de risco, não obstante a correção já ocorrida, podendo interagir com as vulnerabilidades acumuladas durante a pandemia e reduzir o preço dos ativos, com impacto no sistema financeiro, sobretudo na valorização de carteiras;
  • Uma redução dos preços no mercado imobiliário residencial, decorrente de alterações nas condições de financiamento; 
  • No que respeita à situação financeira dos particulares, a redução do rendimento disponível real devido à inflação e o efeito do aumento das taxas de juro sobre o serviço de dívida, aos quais acresce a incerteza relativa à evolução da atividade económica e do emprego; 
  • O aumento da probabilidade de incumprimento das empresas, refletindo o efeito conjunto da vulnerabilidade financeira de algumas empresas, da recuperação incompleta da atividade e da rendibilidade de alguns setores no pós-pandemia, bem como o enquadramento macroeconómico e financeiro atual;
  • O rácio de dívida das administrações públicas em percentagem do PIB não prosseguir a trajetória de redução prevista, derivado da incerteza sobre a atividade económica e do aumento dos custos de financiamento; 
  • Nos próximos anos, o aumento das taxas de juro deverá traduzir-se numa melhoria da margem financeira dos bancos e num aumento do reconhecimento de imparidades e de perdas potenciais decorrentes da desvalorização dos títulos de dívida a justo valor. O impacto de cada um destes fatores é condicionado pela evolução da atividade económica e diferenciado conforme o horizonte temporal.

Num horizonte mais alargado, outros desafios poderão afetar de forma transversal e estrutural a economia, com implicações sobre o crescimento económico e a inflação. A materialidade desses desafios — incluindo o abrandamento do comércio internacional, a pressão nos mercados da energia e o aumento da digitalização da economia — requererá aos setores institucionais residentes um esforço de investimento significativo. A capacidade dos bancos para gerar capital, a margem de manobra da política orçamental e o endividamento e o serviço de dívida do setor privado não financeiro constituem vulnerabilidades que limitam as decisões de investimento. Ganha assim importância acrescida uma utilização eficiente dos fundos europeus do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR). 

A política macroprudencial deve ter em conta os desafios colocados à estabilidade financeira, as vulnerabilidades de caráter estrutural e a origem do risco sistémico, destacando-se, nos últimos meses, o ajustamento à Recomendação relativa aos novos créditos ao consumo e à habitação, fazendo depender a maturidade máxima das novas operações de crédito à habitação da idade dos mutuários.


Infografia: Relatório de Estabilidade Financeira de junho de 2022