Está aqui

Comunicado do Banco de Portugal sobre o Boletim Económico de maio de 2021

Em 2020, a evolução da economia portuguesa foi fortemente condicionada pela pandemia COVID-19. Após sete anos de crescimento consecutivo, e de redução generalizada do risco nos diferentes setores institucionais, as estimativas apontam para uma queda da atividade em Portugal de 7,6% em 2020, superior à contração de 6,8% na área do euro, refletindo sobretudo uma maior exposição ao turismo.

A suspensão de algumas atividades, o encerramento parcial ou total de empresas e o fecho de fronteiras causaram disrupções na oferta. Para a contração da procura foi particularmente importante a quebra da procura externa, sobretudo do turismo e, em menor grau, do consumo privado. 

A evolução da atividade teve um perfil intra-anual muito marcado. A quebra ocorreu durante o primeiro confinamento geral. Em contraste, o alívio das restrições permitiu uma recuperação rápida da atividade. 

A preservação das condições de financiamento favoráveis e as medidas de apoio às famílias e às empresas, com destaque para os subsídios às empresas e a suspensão de obrigações fiscais, minoraram o impacto do choque pandémico. As decisões de política monetária do Banco Central Europeu contribuíram para a manutenção das condições favoráveis de financiamento dos bancos portugueses e a sua transmissão à economia. 

As linhas de crédito com garantia pública e o regime de moratórias permitiram suprir as necessidades de liquidez das empresas. O crédito à economia cresceu, tendo o rácio de endividamento do setor privado aumentado, mas as moratórias de crédito minoraram o serviço da dívida. 

As despesas com juros das administrações públicas reduziram-se pelo sexto ano consecutivo. O rácio da dívida pública aumentou 16,8 pp, para 133,6% do produto interno bruto (PIB), refletindo o défice orçamental de 5,7% do PIB, a acumulação de depósitos de 4,6% do PIB e a contração do PIB de 7,6%. O aumento da dívida pública em Portugal foi superior ao da área do euro.

O rendimento disponível dos particulares aumentou 1%, com contributos idênticos das remunerações e das prestações sociais e outras transferências correntes. A taxa de poupança das famílias atingiu 12,8% do rendimento disponível, um máximo desde 2002.

O impacto da pandemia foi muito diferenciado em termos setoriais, mas as medidas de salvaguarda do emprego contribuíram para conter a sua redução em 2%. A taxa de desemprego subiu apenas 0,3 pp, para 6,8%. 

O contexto pandémico foi também marcado pela descida dos preços. A taxa de inflação reduziu-se para -0,1% (0,3% em 2019), refletindo sobretudo a evolução dos preços dos bens energéticos e dos serviços. Apenas os preços dos bens alimentares apresentaram um aumento significativo de 1,8%.

A economia portuguesa reduziu a sua capacidade de financiamento face ao exterior. Esta evolução é diferenciada nas componentes da balança. O saldo conjunto da balança corrente e de capital situou-se em 0,1% do PIB (1,2% em 2019). A balança corrente passou a registar um défice de 1,2% do PIB, em contraste com o excedente médio de 0,5% em2018 e 2019. Por seu turno, o saldo da balança de capital aumentou para 1,3% do PIB, por via dos recebimentos dos fundos da União Europeia.