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Comunicado do Banco de Portugal sobre o Boletim Económico de maio de 2020

O Banco de Portugal publicou hoje o Boletim Económico de maio de 2020. O Boletim apresenta uma análise da economia portuguesa em 2019 e inclui um tema em destaque sobre “O impacto económico da crise pandémica”.

A economia portuguesa em 2019 e desenvolvimentos recentes

Em 2019, a economia portuguesa continuou a registar uma expansão, embora a um ritmo inferior ao dos dois anos anteriores, devido, em larga medida, ao abrandamento das exportações, resultante da desaceleração da procura externa dirigida aos exportadores portugueses. Verificou-se, assim, uma diminuição do excedente da balança de bens e serviços, principal razão para a redução da capacidade de financiamento da economia portuguesa.

A taxa de desemprego manteve a trajetória de diminuição em 2019, embora com um perfil mais moderado, num ano marcado por um aumento significativo da produtividade aparente do trabalho, em contraste com a evolução dos anos anteriores.

Apesar de ter havido uma ligeira aceleração das remunerações por trabalhador, a massa salarial da economia cresceu a um menor ritmo, contribuindo para o abrandamento do rendimento disponível das famílias. O consumo privado também desacelerou face ao observado no ano anterior, mas a taxa de poupança das famílias manteve-se estabilizada em níveis historicamente baixos.

O crescimento do investimento aumentou ligeiramente em 2019, apesar do perfil de desaceleração ao longo do ano.

A economia portuguesa apresentou um desempenho relativamente positivo em 2019. Esta realidade deteriorou-se de forma abrupta e significativa com a atual crise pandémica, cujas consequências económicas são ainda difíceis de avaliar. No entanto, são inevitáveis efeitos negativos muito profundos e potencialmente prolongados no tempo, que perturbarão o processo de ajustamento da economia portuguesa.

 

Tema em destaque: “O impacto económico da crise pandémica”

Com o objetivo de contribuir para a análise dos canais através dos quais a pandemia de Covid-19 afeta a atividade económica e para a compreensão das respostas de política que têm sido adotadas pelas autoridades, o Boletim Económico inclui um tema em destaque dedicado ao tema “O impacto económico da crise pandémica”, composto por duas partes.
 

Parte 1 - Impacto macroeconómico e respostas de política

A Parte 1 do tema em destaque analisa o impacto macroeconómico da pandemia de Covid-19 e as respostas de política adotadas pelas diferentes autoridades em diversos países.

A pandemia decorrente da propagação do novo coronavírus constituiu um choque negativo de grandes proporções sobre a saúde pública mundial com consequências muito adversas na situação económica dos países. A configuração e a dimensão dos impactos económicos da crise não são ainda plenamente antecipáveis.

As autoridades de política dos diferentes países e as instituições internacionais com competências na área económica têm procurado avaliar as diferentes dimensões do impacto da pandemia, adotando um largo leque de políticas tendentes a mitigar o efeito da Covid-19 e das correspondentes medidas de contenção.

Têm sido tomadas medidas que visam o apoio à liquidez das empresas, designadamente através de moratórias ao pagamento de juros e capital relativos a créditos contraídos, criação de linhas de crédito bonificadas e garantias públicas sobre novos créditos, adiamento do cumprimento de obrigações fiscais, bem como a possibilidade de implementar layoffs, com redução parcial de salário para os trabalhadores e custos partilhados entre as empresas e a segurança social.

Em paralelo, foram iniciadas medidas tendentes a apoiar a situação financeira das famílias, que incluem a ajuda à manutenção dos postos de trabalho através dos mecanismos de layoff e prestações sociais específicas, mas também moratórias ao pagamento de juros e capital relativos a alguns créditos contraídos pelas famílias.

Em termos de política macroeconómica, os bancos centrais adotaram medidas para a criação de condições para a concessão de liquidez em larga escala.

Este vasto conjunto de respostas de política não encontra precedentes no passado recente, em termos de dimensão financeira e amplitude de atuação. No entanto, deve sublinhar-se a enorme incerteza em torno dos impactos macroeconómicos da pandemia e dos efeitos das medidas adotadas. A capacidade de mitigar os efeitos da crise económica e de promover as condições para o relançamento das economias exigirá um enorme esforço por parte das autoridades no sentido de avaliar efeitos indesejados – e de promover correções e adaptações –, mas também de reforçar políticas e antecipar novas respostas.

 

Parte 2 - Impactos de curto prazo sobre as empresas e famílias portuguesas

A Parte 2 do tema em destaque apresenta os resultados de dois exercícios efetuados com o objetivo de simular as consequências de curto prazo da pandemia na situação financeira das empresas e das famílias.

Estes exercícios baseiam-se em hipóteses comuns quanto ao impacto da pandemia na atividade de cada setor, que refletem em larga medida os resultados do Inquérito Rápido e Excecional às Empresas, realizado pelo Instituto Nacional de Estatística e pelo Banco de Portugal na semana de 6 a 10 de abril, e analisam o impacto das medidas de mitigação dos efeitos da pandemia anunciadas pelo Governo.

De acordo com as conclusões obtidas, a percentagem de empresas que não tem liquidez suficiente para pagar os custos fixos aumenta com o número de dias de redução da atividade, à medida que se esgotam progressivamente as suas reservas de caixa, depósitos e linhas de crédito contratualizadas.

Na ausência de layoff, estima-se que 17% das empresas tem défice de liquidez ao fim de 40 dias de quebra de atividade. A percentagem de empresas com défice de liquidez ao fim de 40 dias úteis é mais elevada no caso das grandes empresas do que nas restantes dimensões. O setor com maior percentagem de empresas com défice é o “alojamento, restauração e similares”.

Quando se considera a adoção da medida de layoff simplificado, a percentagem de empresas com défice no cenário de 40 dias úteis reduz-se para cerca de 12%, um valor em linha com aquele que era observado antes da pandemia. Esta percentagem reduz-se mais nas grandes empresas e no setor “alojamento, restauração e similares” que, ainda assim, continua a ser o setor onde uma maior percentagem de empresas tem défice de liquidez após a consideração da medida de layoff simplificado.

Relativamente ao impacto nas famílias portuguesas, a redução da atividade decorrente das medidas de contenção da pandemia tem um impacto negativo sobre o seu rendimento disponível e, como consequência, nas suas decisões de consumo. O exercício efetuado sugere que após a consideração das medidas de apoio ao rendimento implementadas pelo Governo, em média, o rendimento disponível das famílias tem uma redução de cerca de 5% e o rendimento do trabalho de cerca de 8%. O impacto negativo no rendimento disponível é mais acentuado nas famílias com rendimento mais elevado e nas de escalões etários mais jovens.

No conjunto das famílias, o valor médio do rendimento deduzido de despesas com bens não duradouros, serviços correntes, prestações de empréstimos e rendas da habitação permanente, reduz-se em cerca de 8% face ao seu valor antes da pandemia, após se considerarem as medidas de apoio ao rendimento assim como a moratória sobre o crédito para compra de habitação permanente e o regime excecional para as situações de mora no pagamento da renda. Em todas as classes de rendimento e escalões etários, a moratória sobre as prestações tem um impacto mais significativo do que a moratória sobre as rendas. Em geral, as moratórias têm um impacto particularmente favorável nas famílias de menor rendimento e nas famílias mais jovens.

 

O Boletim Económico inclui ainda oito caixas:

Caixa 1: A diminuição recente das taxas de juro nos empréstimos à habitação em Portugal face à área do euro

Caixa 2: Evolução estrutural da receita fiscal e contributiva

Caixa 3: A dualidade indústria-serviços: Portugal no contexto das economias avançadas

Caixa 4: Uma caraterização dos gestores de topo em Portugal

Caixa 5: Indicadores de inovação em Portugal

Caixa 6: Qual o grau de digitalização da economia portuguesa?

Caixa 7: Propensão a consumir em Portugal e na área do euro: uma análise com dados de inquérito

Caixa 8: Evolução recente da rentabilidade das empresas portuguesas