Nota introdutória do Governador Vitor Constâncio na conferência de imprensa de apresentação do Boletim Económico - Dezembro de 2000, em Lisboa
25 de Janeiro de 2001
Publicação de Projecções e a Política Económica portuguesa
1. A partir do mês passado o Boletim Mensal do BCE iniciou a publicação de projecções para a área do euro referentes às principais variáveis económicas, incluindo a inflação. A publicação agora iniciada resulta do envolvimento de todos os Bancos Centrais nacionais, passará a acontecer duas vezes por ano, em Junho e Dezembro, e deverá abranger sempre um horizonte de dois anos.
Como é sabido, o Banco de Portugal publicava habitualmente previsões económicas em Março e Setembro referentes ao mesmo ano, embora sem incluir a inflação entre as variáveis apresentadas. A nova orientação adoptada a nível do Eurosistema implica, porém, uma alteração desse procedimento. Decidimos, assim, passar a divulgar no Boletim Económico imediatamente posterior ao Boletim do BCE as projecções para a economia portuguesa elaboradas pelo Banco de Portugal no contexto da preparação das projecções para a zona euro, incluindo agora também a inflação. No Boletim de Dezembro de cada ano serão apresentadas as projecções referentes ano seguinte e apenas no Boletim de Junho se incluirão as projecções relativas ao ano subsequente. A razão desta diferença relativamente ao adoptado para a área do euro, reside no facto de ser mais difícil fazer previsões para um horizonte mais distante e atingir uma aceitável fiabilidade quando se trata de uma pequena economia que é mais aberta e volátil do que o conjunto da zona euro. Em Junho haverá mais informação e aumentará a possibilidade de realizar projecções mais fiáveis para o ano de 2002.
2. A preocupação com a credibilidade das projecções radica nos próprios fundamentos justificativos da publicação, a partir de agora, das projecções económicas que o Eurosistema sempre realizou internamente. Na verdade, qualquer estratégia moderna de política monetária tem que contar com o efeito das expectativas dos agentes económicos no processo de transmissão dos impulsos monetários à economia. Divulgar as projecções económicas, nomeadamente as relativas à inflação, é uma forma de tentar estabilizar as expectativas em torno dos valores considerados pelo próprio Eurosistema ao ponderar as suas decisões de política monetária. A transparência contribui, neste caso, para favorecer a credibilidade da política monetária. A maior credibilidade confere, por sua vez, maior flexibilidade à condução desta política, permitindo, por exemplo, responder melhor a choques recessivos sem comprometer a confiança na capacidade de controlar a inflação ou tornando possível variações mais abruptas das taxas de juro em caso de necessidade, sem introduzir demasiado ruído de informação aos agentes económicos.
As projecções divulgadas são um exercício de previsões condicionadas à hipótese de manutenção sem alterações da política monetária. Ou seja, são projecções que tratam como constantes durante todo o período, quer as taxas de juro quer a taxa de câmbio. Este procedimento é uma forma de manter o conteúdo de informação das taxas existentes que, necessariamente, são consideradas pelas autoridades como as mais adequadas à situação económica desse momento. Fazer previsões sobre o andamento futuro das taxas de juro seria, além do mais, uma forma de retirar flexibilidade às decisões de política que as condições efectivas de cada momento devem determinar. Os Bancos Centrais que divulgam projecções utilizam habitualmente este método, embora alguns o acompanhem de projecções com base nas taxas de juro futuras implícitas nas taxas dos mercados monetário e financeiro. A realização deste exercício tende a ser mais completa nos países que seguem uma estratégia de política monetária designada por «metas de inflação», o que não é o caso do Eurosistema. Como é conhecido, o que adoptamos é uma estratégia híbrida e mais flexível que utiliza elementos de diferentes abordagens à concepção da política monetária. Esta flexibilidade permitiu que a política se tivesse ajustado convenientemente às necessidades da economia europeia. Após a redução das taxas de juro no início de 99, como resposta aos riscos recessivos então existentes, a subida de taxas que decidimos no Conselho de Governadores ao longo do ano passado travou o processo inflacionista sem comprometer o crescimento económico e a descida do desemprego. A criação do euro, ao permitir aplicar uma política monetária única, dotou os países europeus de um instrumento poderoso para desligar em grande medida a sua própria conjuntura económica daquilo que acontece noutras partes do mundo. Esta capacidade de autonomia, que só uma política monetária única proporciona, está bem visível na evolução recente em que se encontra particularmente vincada a diferença entre as conjunturas americana e europeia. A Europa dispõe agora de melhores condições para resistir às consequências da desaceleração da economia dos EUA.
3. A menção da evolução mais recente leva-me a sublinhar a velocidade com que hoje em dia as projecções se desactualizam, pelo menos parcialmente. Na verdade, os valores divulgados em finais de Dezembro foram determinados com base em hipóteses estabelecidas em princípios de Novembro. Desde então, assistiu-se a uma recuperação da taxa de câmbio do euro, o preço do petróleo encontra-se agora mais baixo e as perspectivas de crescimento da economia do resto do mundo são mais pessimistas. As projecções publicadas assumiam uma taxa constante do euro-dólar de 0.85 e os valores recentes têm oscilado em torno de 0.94, enquanto o preço de petróleo então considerado era de 29 dólares que compara com a perspectiva de um valor médio este ano de cerca de 25. Por sua vez , as previsões de crescimento hoje mais consensuais para a economia americana situam-se cerca de um ponto percentual abaixo do que se antevia há três meses. Todos estes desenvolvimentos, segundo muitos analistas, terão efeito sobre o crescimento da área do euro podendo reduzi-lo em cerca de 0,25 pontos percentuais relativamente às projecções de Dezembro último, em que se apontava para um intervalo centrado em 3,1%. Os efeitos sobre a inflação poderão ser também muito significativos, situando o seu valor médio abaixo de 2% em 2001, caso se verifiquem como mais verdadeiras as hipóteses que hoje os analistas formulam a propósito da taxa de câmbio do euro ou do preço do petróleo.
Como referi atrás, as projecções que o Banco de Portugal divulga neste Boletim Económico são as que foram elaboradas no contexto da preparação das publicadas para a área do euro no Boletim Mensal do BCE de Dezembro. Não se tentou, assim, proceder a qualquer actualização pelo que os números devem ser lidos considerando o contexto em que foram preparados. A lógica subjacente às alterações referidas para a zona euro conduziria a concluir que, com as novas hipóteses, a inflação e o crescimento previstos para Portugal seriam ligeiramente inferiores aos apurados para a publicação feita em Dezembro. Os valores citados mostram que as diferenças seriam muito pequenas e que, dadas as incertezas que necessariamente rodeiam as previsões de variáveis como o investimento ou os salários, por exemplo, os intervalos de previsão apresentados neste Boletim certamente as acomodariam.
4. O cenário de crescimento apresentado reflecte uma ligeira desaceleração que está conforme a um ajustamento suave da economia portuguesa no sentido de uma moderação do crescimento da despesa interna que tem sido sustentada num endividamento crescente. A economia não pode continuar indefinidamente com níveis de despesa muito acima do que produz. Um endividamento dos agentes económicos associado a um nível de procura interna superior ao PIB conduz a um défice com o exterior. No entanto, para um país sem moeda própria como é agora o nosso caso, os limites do défice externo resultam essencialmente da agregação da capacidade de endividamento de cada um dos seus agentes, incluindo os bancos. Estes têm intermediado entre os agentes domésticos e o exterior endividando-se junto dos mercados interbancários da zona euro para financiar a expansão do crédito. Os mercados financeiros e os bancos estrangeiros têm proporcionado estes recursos porque avaliam de forma positiva a solidez dos bancos portugueses.
Um processo deste tipo tem naturalmente limites e a partir de certo momento inicia-se um processo natural de moderação do aumento da despesa. O que é importante para um país inserido numa união monetária é precisamente a existência de mecanismos auto-correctores de um desequilíbrio externo excessivo, e o nosso atingiu quase 10% do PIB no ano passado. Na verdade, ou os agentes começam a moderar despesas e a aumentar os seus níveis de poupança ou os bancos apertam os seus critérios de avaliação do risco e reduzem em consequência a oferta de crédito. Quanto mais tarde começar este processo de desaceleração, mais abrupta poderá ser a paragem e maiores os riscos de uma verdadeira recessão. Por isso mesmo é desejável que a economia continue um processo de desaceleração que já é, aliás, visível no consumo e na produção industrial.
Isso em geral implica uma ligeira quebra do crescimento da economia, também parcialmente bloqueado pela situação de pleno emprego em que nos encontramos. Como referi em Julho passado: «A economia portuguesa está numa situação de pleno emprego, enquanto que a Zona do Euro tem ainda margem para crescer antes de atingir o produto potencial, dado o maior desemprego existente. Para crescer a taxas mais elevadas, Portugal necessitava de um salto de produtividade, difícil de conseguir no curto prazo, ou de recorrer à importação de mão-de-obra em maior escala.»
Não é, assim, de estranhar que outros países europeus, como a Espanha ou a Grécia, esta última agora sujeita ao efeito de uma redução das taxas de juro, apresentem crescimento mais forte que Portugal. Precisamos de aumentos de produtividade que implicam transformações estruturais do lado da oferta com melhoria da qualidade dos factores produtivos e da eficácia da sua utilização. Esse é um processo de médio e longo prazo que depende de algumas políticas públicas, criadoras de novas economias externas de produção, mas que está acima de tudo dependente de mais iniciativa empresarial.
A predominância das políticas de oferta constitui uma das regras que tem de respeitar uma economia inserida numa união monetária. Desprovida de instrumentos fundamentais de controle da procura global e da instabilidade conjuntural, a política económica tem de concentrar-se noutros aspectos. A relevância das infra-estruturas, da qualidade do capital humano, dos incentivos à oferta de trabalho, do clima favorável ao investimento produtivo e à modernização tecnológica, constituem os fundamentos da competitividade e da possibilidade de melhoria do nível de vida. Uma união monetária é um espaço de globalização das relações económicas que impõe inevitavelmente mais concorrência.
Daí decorre uma segunda regra a seguir por qualquer dos países da união: a aceitação da abertura ao exterior e à internacionalização das empresas dentro da lógica de um só mercado intensamente concorrencial e sujeito à disciplina de um mercado de capitais integrado. Estas e outras regras de funcionamento não foram ainda completamente compreendidas entre nós. Assistimos ainda a afloramentos de antigas formas de pensamento tributário do enquadramento em que ainda tínhamos moeda própria e controle de movimentos de capitais.
5. A ausência da interiorização plena do novo quadro de funcionamento da economia portuguesa encontra-se bastante presente nos comportamentos que têm a ver com a inflação. A projecção realizada no contexto do Eurosistema poderá hoje ser revista ligeiramente em baixa em virtude da evolução mais recente da taxa de câmbio do euro e do preço do petróleo. No entanto, a circunstância da inflação ter sido superior ao previsto nos últimos dois meses do ano e a incerteza quanto à política salarial aconselha prudência quanto à revisão do valor previsto para 2001.
O facto do aumento dos preços dos combustíveis ter sido realizado em finais de Março do ano passado conduz a que a inflação medida nos primeiros meses deste ano sofra uma aceleração pontual, provavelmente com valores acima de 4%, em consequência da base de comparação dos primeiros meses de 2000 ser anterior aos aumentos dos combustíveis. Conforme se indica adiante no texto sobre as perspectivas de evolução da economia, a inflação média projectada para este ano estará compreendida entre 2,9% e 3,3%, apresentando, porém, um padrão intra anual com uma forte desaceleração ao longo do ano. Estima-se, assim, que no final de 2001 a inflação se possa situar ligeiramente abaixo de 2,5%. O risco associado à inflação bastante mais elevada do início do ano resulta do facto de ser nesse período que decorrem habitualmente as principais negociações salariais e estas poderem ser erradamente influenciadas pelos níveis mais recentes da inflação verificada.
Aliás, e mais fundamentalmente, a progressão dos salários médios em Portugal não pode continuar a ignorar o que se passa nos restantes países da zona euro. Essa é outra regra de funcionamento numa união monetária que não podemos ignorar: sem moeda própria e, portanto, sem a possibilidade de desvalorizações, a progressão dos salários acima das taxas de crescimento verificadas no resto da união acaba a prazo por afectar essencialmente a competitividade e o desemprego. Ou seja, tem que se tomar como referência para as decisões que influenciam custos e preços, os valores médios da zona euro por forma a ter, nomeadamente, uma progressão de custos de trabalho por unidade produzida (CTUP) que não difira continuamente do seu aumento no resto da zona. Note-se que esta variável já entra em consideração com a evolução das produtividades relativas. Na verdade, um indicador usual da competitividade em relação aos nossos parceiros comerciais é um índice que resulta da correcção da taxa de câmbio nominal pelo ratio da evolução dos CTUP’s em Portugal e nos restantes países. A variação do custo de trabalho por unidade produzida é dada pela diferença entre a taxa de crescimento dos salários nominais e a taxa de crescimento da produtividade medida em termos reais. Por outro lado, em relação aos outros países da área do euro a «taxa de câmbio» é agora igual a 1 (partilhamos a mesma moeda) e a sua variação igual a zero. Logo, para manter constante a taxa de câmbio real (medida pelos CTUP’s relativos) é necessário que a diferença de crescimento dos salários nominais entre Portugal e a zona euro seja igual à diferença de crescimento das produtividades reais. Só desse modo os CTUP’s crescem o mesmo e a competitividade se mantém (ver anexo 1). Não é, porém, o que tem acontecido nos últimos anos (ver Quadro I).
Quadro I - Crescimento dos CTUP’s
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1998 |
1999 |
2000 |
| Portugal |
4,2 % |
4,0 % |
3,9 % |
| Zona Euro |
0,3 % |
1,1% |
0,8 % |
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|
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| Espanha |
2,3 % |
2,3% |
2,4 % |
| Irlanda |
3,4 % |
2,3 % |
2,4 % |
| Itália |
-2,3 % |
1,4 % |
1,0 % |
Nos últimos cinco anos os custos unitários de trabalho em Portugal cresceram sempre acima do verificado nos restantes países que têm composto a zona euro (excluindo, portanto, a Grécia que só aderiu este ano). É uma evolução que não pode continuar indefinidamente. A competitividade nos preços pode aguentar-se alguns anos através da compressão de margens de lucro e/ou do crescimento acima da média em algumas empresas produtoras de bens transaccionáveis, mas ambas as soluções têm óbvios limites. Evidentemente que em última análise o que interessa é aquele indicador avaliado em relação a todos os nossos parceiros e concorrentes, mas a referência à área do euro para onde exportamos mais de 80% das nossas exportações e importamos mais de 70% do total, é o conjunto mais relevante.
Por outro lado, a evolução dos salários em Portugal, situando-se nos últimos anos acima da produtividade, tem reduzido as margens de rentabilidade empresarial. A longo prazo, os crescimentos salariais acabam sempre por se aproximar da progressão da produtividade, embora se possa assistir a períodos limitados de alteração da repartição funcional do rendimento. No entanto, a evolução dos últimos anos tem sido particularmente marcada (ver Quadro II).
Quadro II - Salários e Produtividade
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1997 |
1998 |
1999 |
2000 |
| Portugal: |
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| Crescimento das remunerações nominais (total da economia) |
5,8 % |
6,0 % |
5,3 % |
5,7 % |
| Crescimento da produtividade |
1,8 % |
1,9 % |
1,3 % |
1,7 % |
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Àrea do Euro:
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| Crescimento das remunerações nominais (total da economia) |
2,1 % |
1,4 % |
1,9 % |
2,4 % |
| Crescimento da produtividade |
1,5 % |
1,1 % |
0,7 % |
1,6 % |
Quando por outro lado se procede à análise comparada de salários reais e produtividade não se pode ignorar o que se passa com os termos de troca. Com efeito, quando se verificam ganhos de termos de troca (evolução relativa de preços de exportação e importação) a manutenção da repartição funcional do rendimento implica que os salários reais tenham de crescer acima da produtividade. Do mesmo modo, quando existem perdas de termos de troca, como aconteceu em 1999 e 2000, para não afectar a rentabilidade de outros factores de produção os salários reais deveriam subir menos que a produtividade. A descida dos termos de troca significa (tudo o resto igual) uma redução do rendimento real da economia em que todos os agentes participam (ver anexo 2).
6. Todos os princípios básicos que acabo de recordar são válidos para a evolução das remunerações médias totais. Na prática verifica-se sempre um «desvio salarial» (wage drift) igual à diferença entre salários efectivamente recebidos e salários negociados. Este desvio de crescimento acima das tabelas negociadas justifica-se como consequência de promoções, de reestruturações de carreiras ou, mais simplesmente, de algumas empresas pagarem aumentos acima das tabelas. Há que contar, pois, com a diferença entre o que se negoceia e o que acontece na realidade. Em Portugal essa diferença tem sido muito significativa (Quadro III).
Quadro III - Portugal - Salários efectivos e negociados
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1997 |
1998 |
1999 |
2000 |
| Sector Empresarial: |
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| Crescimento dos salários efectivos |
5,3 % |
5,1 % |
4,8 % |
5,0 % |
| Crescimento dos salários negociados |
3,6 % |
3,1 % |
3,3 % |
3,5 % |
| «Desvio salarial» |
1,7 % |
2,0 % |
1,5 % |
1,5 % |
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| Sector Público: |
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| Crescimento dos salários efectivos |
6,6 % |
6,5 % |
6,7 % |
5,9 % |
| Crescimento dos salários negociados |
3,0 % |
2,8 % |
3,0 % |
2,5 % |
| «Desvio salarial» |
3,6 % |
3,7 % |
3,7 % |
3,4 % |
O quadro mostra com clareza a importância do fenómeno do «desvio salarial» no nosso país. Uma análise de um período mais longo revela que a dimensão daquele desvio varia fortemente com o ciclo económico. Em situação de pleno emprego como é aquela em que nos encontramos é de esperar que seja este ano tão elevado como nos últimos anos. Isso implica que se deve ter particular cuidado nos aumentos salariais nas tabelas negociadas. Na zona euro os salários efectivos totais subiram apenas 2,4 % em 2000 e para 2001 estima-se um valor de 2,75 %. Tendo em conta esta realidade, bem como o que ocorreu nos últimos anos, resulta claro que as tabelas salariais médias deviam subir claramente menos do que 3% em 2001. Nesta perspectiva, os aumentos das tabelas salariais dos funcionários públicos em 3,71 % que se poderão transformar em aumentos efectivos de mais de 6% como em anos anteriores, constituem um mau exemplo de difícil compatibilização com a situação das finanças públicas e que não deve ser seguido pelos restantes sectores da economia.
Na verdade, com um «desvio salarial» significativo, o aumento dos custos de pessoal vai criar dificuldades à execução orçamental, sendo certo que Portugal já se encontra na posição extraordinária para o seu nível de desenvolvimento de ser o país da área do euro com mais elevados custos de pessoal na Administração Pública em percentagem do PIB. Por outro lado, verifica-se também que nos últimos anos o aumento dos vencimentos dos funcionários públicos foi superior aos dos restantes sectores da economia, sendo que a remuneração líquida média na função pública é mais elevada em cerca de um terço do que a que vigora no sector empresarial. Esta é uma realidade que apenas parcialmente é explicada pelo maior nível de qualificação escolar em média existente na Administração Pública.
Portugal precisa de uma reforma estrutural dos procedimentos de negociação salarial que obedeça aos seguintes princípios:
- Ter como referencial relevante o aumento dos custos na área do euro e os diferenciais de produtividade real de que possamos beneficiar.
- Introduzir salários negociados para dois anos (em vez de apenas um) para dar estabilidade e reduzir a incerteza e os custos da conflitualidade na economia. Isso acontece em vários países europeus e tenderá a generalizar-se agora que se pode confiar num regime de inflação estável em torno de 2% em toda a área do euro.
- Os referenciais salariais gerais não deverão prejudicar a consideração de condições específicas sectoriais, regionais e empresariais, garantindo alguma margem de manobra negocial a nível microeconómico.
Estas orientações poderão parecer a alguns a expressão de um pensamento ortodoxo, mas correspondem, singelamente ao reconhecimento da realidade fundamental em que se move agora a economia portuguesa. Aos representantes dos trabalhadores que alimentam a ilusão de que é possível continuar a reproduzir indefinidamente a evolução dos últimos anos há que dizer que isso apenas contribuiria para fabricar desemprego futuro. O desemprego é a partir de agora a variável que ajusta e se persistir a evolução dos anos mais recentes as consequências sobre o desemprego serão também o reflexo do poder de oligopólio social dos que neste momento detêm um emprego.
A melhoria sustentável do nível de vida e a convergência para os níveis médios europeus só pode dar-se com base no crescimento da produtividade real acima da dos nossos parceiros. Precisamos de uma política nacional consensual que reduza a nossa inflação de custos para valores próximos da média europeia por forma a contribuir para a competitividade das empresas portuguesas, a quem compete realizar um maior esforço de investimento e modernização tecnológica.
7. A progressão dos custos salariais dos últimos anos tem criado condições difíceis à política orçamental contribuindo para um aumento das despesas correntes do Estado. O aumento do consumo público estimulou a procura interna e contribuiu para uma política orçamental pró-cíclica a partir de 97. Apenas o orçamento para este ano, quando corrigido dos efeitos do ciclo económico, revela um impulso autónomo restritivo. O crescimento excessivo da despesa nos últimos anos retirou, porém, flexibilidade à política orçamental para fazer face a uma desaceleração do incremento das receitas fiscais nos próximos anos, o que impõe, como afirmou recentemente o Senhor Ministro das Finanças, a necessidade de reformas mais profundas para conter o crescimento da despesa. Merecem apoio os termos do mandato definido pelo Senhor Ministro para os trabalhos da Estrutura de Coordenação para a Reforma da Despesa Pública (Ecordep) recentemente empossada. Espera-se que desses princípios e das medidas a propor pela Ecordep beneficie a evolução das Finanças Públicas para além do que se pode hoje perspectivar.
Isso é essencial para que respeitemos mais uma das regras, a quarta que menciono, que os países de uma união monetária têm que adoptar. Com efeito, a política orçamental permanece como o único instrumento de que os países dispõem para fazerem alguma regulação da conjuntura económica . A política orçamental tem, assim, que se tornar mais flexível e, para que possa ter um efeito anti-cíclico significativo e absorver choques económicos adversos, tem que criar margem de manobra nos períodos de prosperidade. É isto que está subjacente aos princípios do Pacto de Estabilidade e Crescimento que, embora restritivos, encontram o seu sentido último na ideia de equilibrar o orçamento ao longo de um ciclo económico, permitindo défices maiores nas fases de recessão desde que compensados por excedentes em fases de forte crescimento económico.
8. As novas regras de funcionamento que referi como imperativas para os países que participam numa união monetária podem resumir-se do seguinte modo:
- Predominância das políticas de oferta. As que dependem de políticas públicas, como as referentes a infra-estruturas, formação de recursos humanos, incentivos à oferta de trabalho ou a um clima favorável de investimento, bem como as que decorrem do comportamento das empresas a quem se exige modernização tecnológica e aumento de produtividade.
- Aceitação da plena abertura ao exterior e à internacionalização das empresas, dentro da lógica de um só mercado em que as fronteiras se diluíram e onde vigora maior concorrência e a disciplina de um mercado de capitais integrado.
- Maior relevância da relação entre salários, competitividade e desemprego. Sem desvalorizações de moeda própria, os salários, mais do que a inflação local, determinam, a prazo, a competitividade e o desemprego.
- Necessidade de utilizar mais a política orçamental de forma anti-cíclica para absorver choques económicos adversos e fases recessivas, o que implica criar margem de manobra, e mesmo excedentes orçamentais, nas fases de prosperidade.
As duas últimas regras que recordei, sobre moderação salarial e disciplina orçamental, significam que, para ter sucesso, a participação numa união monetária implica essencialmente interiorizar novas normas de funcionamento em matéria de política salarial e orçamental. Trata-se de funcionar de acordo com um são princípio de realidade e retirar todas as consequências de pertencer a uma união monetária que não volta atrás. Fizemos uma opção de alcance histórico irreversível e há que assumi-la por inteiro. De outro modo não se conseguirão colher plenamente os enormes benefícios que retiramos da nossa participação. Sem ela não estaríamos desde há alguns anos a beneficiar de um regime de taxas de juro baixas. A queda das taxas de juro durante a segunda metade da década implicou um aumento da riqueza e da capacidade de endividamento dos agentes económicos privados. Muitas famílias e empresas tornaram-se de súbito solventes para aceder ao crédito e, racionalmente, em face do novo regime de inflação e juros baixos, decidiram usá-lo para aumentar as suas despesas. As empresas aproveitaram para expandir e modernizar a sua capacidade produtiva e estima-se que o seu endividamento tenha crescido até 71,4% do PIB em 99. Por sua vez, estima-se que as famílias em 1990 tinham um endividamento de 18,5% em relação ao Rendimento Disponível e os encargos com juros representavam 4,8%. Em 1999, o ratio da dívida tinha subido para 76%, mas os encargos com juros eram apenas de 3,5% do Rendimento Disponível. Este aumento do endividamento tem a sua contrapartida no acesso a bens e serviços que melhoraram substancialmente a qualidade de vida. Ou seja, não foi apenas o aumento do rendimento real, mas também o acesso aos serviços de bens duradouros (habitação, automóveis etc.) que tornaram estes anos num período único na nossa história económica.
Esse processo tinha limites naturais associados à capacidade de endividamento de cada agente económico e vamos agora atravessar a fase de ajustamento e moderação do crescimento da despesa. Também nesta matéria vale o ditado popular segundo o qual o hábito não faz o monge. Não basta envergar as vestes enriquecedoras da união monetária é preciso também assumir as suas exigentes virtudes e regras de vida. Como assegura, porém, a sabedoria clássica, «todas as coisas excelentes são tão difíceis quanto raras».
23 de Janeiro de 2001
Vitor Constâncio
Anexo 1
Custos unitários do trabalho, salários e competitividade
A definição de Custos de Trabalho por Unidade Produzida (CTUP) é a seguinte:

O que interessa comparar internacionalmente são os custos unitários nominais na mesma moeda.

Ou seja, para manter a competitividade, o diferencial de crescimento com o exterior dos salários nominais tem que ser igual ao diferencial de crescimento da produtividade real.
Anexo 2
Efeito dos termos de troca sobre a distribuição funcional
Consideremos as seguintes equações:

Analisemos agora as condições necessárias para que se mantenha a distribuição funcional do rendimento. Partimos da parte do trabalho no PIB,

Podemos escrever a mesma expressão mas com salários reais e PIB real, considerando que, quando os termos de troca podem variar, o índice geral de preços no consumidor pode variar de forma diferente de um deflator do PIB. Temos então
